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LEMBRO-ME

Caras e Pessoas

Esse foi o título de um projeto que durante a década de 90 realizei em Portugal e que tinha como objetivo documentar personalidades portuguesas em duas situações que pudessem de certa forma revelar as distintas personas que carregamos. A idéia era que em uma das fotografias o retratado se apresentasse de forma inusitada, e porque não com uma careta ou a língua para fora, a exemplo do emblemático retrato de Albert Einstein. Como se tratava de personalidades, naturalmente o então presidente Mário Soares não poderia ficar de fora. Fotogênico e acessível, topou ser modelo para um desconhecido fotógrafo brasileiro. Lá fui eu.

DIPTICO MARIO SOARES.jpg

O "circo" estava armado. O fundo preto de tecido já estava erguido, as luzes do infalível  Broncolor afinadas, os backs da Hasselblad carregados com filmes de 12 poses e prontos para serem disparados, a poltrona onde o presidente sentaria milimetricamente colocada, as cortinas que escureceriam a sala já fechadas. Penso que, a exceção da tranquilidade que não pairava sobre o fotógrafo, tudo estava pronto para o momento que não tinha nada a ver com o “momento decisivo”, magistralmente propagado pelo fotógrafo francês Henri Cartier Bresson. Aquela não era uma sessão de street photography, na qual certamente eu estaria bem mais à vontade...


Tudo estava pronto, assim acreditava eu. Lembro-me então de ter dado o comando final que seria quase impossível recuar. “Chame se faz favor o presidente”, assim gentilmente me dirigi à amável pessoa que o assessorava, já não me recordo se era um senhor ou uma senhora. Lembro-me sim de que, passado alguns minutos, a figura do presidente Mário Soares ganha corpo e alma naquela suntuosa sala do palácio. Meu primeiro encontro, cara a cara, com aquele presidente de república havia então se tornado uma realidade.

Lembro-me que a sessão foi rápida, não cheguei a finalizar o segundo rolo de filme. A primeira série fotográfica foi realizada com sucesso, foi então que lancei ao presidente o desafio de uma proposta atrevida que seria fotografar a sua bochecha, fazendo assim alusão ao seu apelido “bochecha”.

O desafio foi aceito e com certo humor. Isto implicou numa “rápida” mudança do posicionamento das luzes e quando tudo estava pronto para começar a segunda sessão senti que o presidente não estava! Meu DEUS! Pânico total! Olhei para o presidente e lá estava ele dormindo na poltrona, fato normal para muitos portugueses já habituados às suas sonecas durante as aborrecidas sessões e reuniões políticas. Como um relâmpago que acende e apaga, fiz um ligeiro rastreio de toda a minha carreira na esperança de ter lido algum livro técnico cujo lição tivesse me ensinado o delicado tema de como se deve acordar um presidente da república. Rapidamente cheguei a conclusão que esta obra era ficção, se existia eu ainda não havia lido. Sem alternativas fiz um sucessivo disparo do flash que jamais me esquecerei. Lembro-me de que o retratado não foi muito receptivo à aquela ofuscante luz que acabara de o derrubar do colo de Morfeu, mas foi assim que acordei o presidente... Ele inflou a bochecha e eu, click nela. A bochecha do bochecha Mário Soares.

 

 

 

FÉ CÓRDULA - Um Espiritualista

 

Fé Córdula, um dos mais talentosos pintor primitivo brasileiro, faleceu em GO na última quinta feira, dia 11.

 

São Francisco e os animais foram temas recorrentes na obra de Fé Córdula.

São Francisco e os animais foram temas recorrentes na obra de Fé Córdula.

Ano passado tive o privilégio de visitar este fabuloso artista nordestino que durante vários anos viveu em uma chácara situada há alguns quilômetros da capital goiana. Foi então neste primeiro encontro que dei início a um antigo desejo de produzir um documentário sobre a obra de um autor pela qual, particularmente, tenho uma profunda admiração.

Os cinco dias que estive com o Fé, ou Chico, como preferia ser chamado, foram suficientes para descobrir que por trás daquele robusto e teimoso homem habitava um espiritualista vocacionado a impregnar em suas telas alegria, cores e muita vida. Chico me surpreendeu com o seu conhecimento e interesse pelos grandes mestres espirituais, tais como Chico Xavier, Prof. Hermógenes, Gandhi e Yogananda, entre outros que ocupam destaques no panteão da civilização védica. 

Primeiro dia de gravações na casa de Fé Córdula - (foto Gustavo Porpirno)

Primeiro dia de gravações na casa de Fé Córdula - (foto Gustavo Porpirno)

Deixei a casa de Chico e de Maria das Dores, a sua esposa, já tarde da noite e exausto pelos dias intensos de trabalho que ali tive. A tira colo com as bolsas de equipamentos carregava a realização profissional preenchida pelos preciosos depoimentos gravados durante aqueles dias de muita empatia e cumplicidade. Na Alma trazia a alegria pela recente descoberta de que apesar de um passado embrutecido de amarguras, arrependimentos e conflitos, habitava em Fé um generoso Ser que buscava arduamente o reencontro da paz, do entendimento familiar, da alegria e das cores que a vida pode ter, sentimentos esses sensivelmente expressados em seu trabalho.

Chico e eu nos despedimos com a certeza de que haveria entre nós novos encontros, nova tertúlia onde temas sobre Deus e os mistérios da vida inevitavelmente seriam novamente suscitados. Fé partiu e eu não voltei à sua chácara..., entretanto, o nosso próximo encontro já está marcado e acontecerá numa ilha de edição com a montagem e finalização do seu filme.

Que Chico siga em Paz! E por aqui ficamos nós com o legado da beleza e simplicidade da sua luminosa obra

Um presente que ganhei de FÉ CÓRDULA. Obrigado meu amigo Chico! 

Um presente que ganhei de FÉ CÓRDULA. Obrigado meu amigo Chico! 

Chico vivia numa chácara entre muitos muitos muitos cães e gatos... (foto Gustavo Porpino)

Chico vivia numa chácara entre muitos muitos muitos cães e gatos... (foto Gustavo Porpino)

Em depoimento para o documentáro o artista plástico Siron Franco ressalta o diferencial e o domínio das cores na obra primitiva de Fé Córdula. 

Em depoimento para o documentáro o artista plástico Siron Franco ressalta o diferencial e o domínio das cores na obra primitiva de Fé Córdula. 

Durante o primeiro dia de gravação o jornalista Gustavo Porpino colaborou com o documentário entrevistando o Fé Córdula.

Durante o primeiro dia de gravação o jornalista Gustavo Porpino colaborou com o documentário entrevistando o Fé Córdula.

O imaginário do Nordeste, onde nasceu Fé Córdula, nunca o abandonou. 

O imaginário do Nordeste, onde nasceu Fé Córdula, nunca o abandonou. 

Fé Córdula, natural do Rio Grande do Norte, viveu durante vários anos no Estado de Goias. Cenas tomadas em 2015 na proximidade da sua chácara. 

Fé Córdula, natural do Rio Grande do Norte, viveu durante vários anos no Estado de Goias. Cenas tomadas em 2015 na proximidade da sua chácara. 

FORA DE FOCO - Mi Amas Vin - Krakow Film Festival

MI AMAS VIN é o título de uma exposição e livro (esgotado) que após percorrer salas do Brasil e do Uruguai chegará no próximo mês ao público da Cracóvia, Polônia. A mostra será apresentada no âmbito do Festival NETIA OFF CAMERA (Festival Independente de Cinema) onde o curta  Bravos do Remo também será exibido. 

Neste post  estão as  pranchas com a edição das 21 fotografias que serão apresentadas nesta ordem. Disponibilizo também o sensível texto de autoria de Pedro Vasquez que foi publicado no livro Mi AMAS VIN.  A obra Mi Amas Vin foi contemplada em 2013 no POY LATAM com a Menção Honrosa na categoria de  "Melhor Livro". 


Por Pedro Afonso Vasquez

Como fotografar o invisível? Como expressar o indizível? Seria realmente possível oferecer um vislumbre do universo metafísico através de um meio de expressão tão atrelado ao mundo visível quanto a fotografia?

Esses são os maiores desafios para aqueles que ambicionam fazer da fotografia algo mais que um espelho fidedigno do real. Desafios que somente um restrito contingente de fotógrafos soube enfrentar com sucesso, entre os quais figuram Julia Margaret Cameron, Edward Sheriff Curtis, Carleton Watkins, Eugène Atget, Alfred Stieglitz, Henri Cartier-Bresson, Josef Sudek, Duane Michals, Minor White e Paul Caponigro. Autores que comprovaram cabalmente que a fotografia também pode ser empregada como instrumento de representação do plano espiritual, nos oferecendo alumbramentos que podem ser comparados a lampejos de inspiração divina.

Por falar em iluminação, é interessante constatar como o jargão técnico fotográfico encontra ressonância na linguagem figurada do misticismo. Nem sempre as palavras são sinônimas, porém diversas são homônimas e muitas podem ser entendidas com sentido idêntico ou bastante similar. O próprio termo fotografia tem a acepção de “escrita da luz” ou “escrita com a luz”, o que lhe confere uma conotação positiva, transcendente e adequada para tratar da condição humana caso aceitemos a hipótese de que a vida humana ¾ nossa missão no plano terreno ¾ seja um movimento das trevas para a luz. Tanto em fotografia quanto na iniciação espiritual a questão essencial é ser capaz de enxergar aquilo que os outros não conseguem perceber, de ser dotado daquilo que Jesus Cristo qualificou de “olhos de ver”. Não há fotografia sem luz, da mesma forma que não há efetiva evolução espiritual sem iluminação, termo que os místicos costumam usar no mesmo sentido de revelação. Ou seja, a capacidade de vislumbrar enfim o que sempre esteve ali, mas não era percebido em virtude de alguma limitação do próprio observador. Em fotografia, revelação é o ato de tornar visível a “imagem latente” já registrada no filme ou no papel fotográfico, porém ainda invisível pela falta de um agente revelador. Na dimensão humana também trazemos dentro de nós aquilo que já somos embora ainda não o saibamos, o que o mestre Masaharu Taniguchi (fundador da Seicho-No-Ie) chama de “imagem da perfeição verdadeira”, aguardando apenas sua exteriorização.

Por circunstâncias históricas ligadas à colonização de nosso território, a maioria das correntes religiosas que vicejou no Brasil não fazia restrições às representações icônicas e tolerava o registro visual (fotográfico, cinematográfico ou videográfico) de seus rituais internos e festas públicas. Seitas e religiões empregam signos altamente codificados cujo significado profundo pode escapar até mesmo ao comum dos fiéis, o qual se reconhece e se espelha nos símbolos das suas crenças, mas é incapaz de explicar suas origens. Já para o observador externo, sobretudo se for um indivíduo destituído de qualquer sentimento religioso, o comportamento ritualístico dos fiéis pode se assemelhar a uma pantomima destituída de sentido prático. Aos olhos dos incréus e dos irreverentes tudo se confunde e se embaralha, pois é de fato difícil entender a multiplicidade dos recursos empregados pelas diferentes culturas para efetuar aquilo que consiste no propósito único da religião, conforme explicitado na origem latina do termo religare: “restabelecer a ligação com o divino”. Assim, para fotografar as manifestações religiosas com verdadeira eficiência é preciso ser dotado de um profundo sentimento religioso, como o testemunhado por Marcelo Buainain em sua brilhante série Mi Amas Vin. Conforme ele próprio citou como fator motivador deste trabalho:

 

Talvez ainda impregnado pela atmosfera espiritualista da Índia, foi em Salvador, durante a festa de santa Luzia, padroeira dos olhos, que fui tomado de forte sentimento e compreensão de que eu deveria me dedicar exclusivamente a fotografar temas relacionados à religiosidade. Apesar de não ser devoto de santa Luzia, o significado do nome Buainain é “pai dos olhos”.

 

Foi, portanto, por uma espécie de predestinação que Marcelo Buainain se dedicou ao registro das manifestações religiosas nacionais, depois de já ter dado provas de seu pendor para o tema no excelente livro Índia: quantos Olhos tem uma Alma (2000), assim como nos dois comoventes e inspiradores documentários realizados em meados na década passada _ Do lodo ao lótus e Deus me livre de ser normal_, ambos girando em torno da inestimável contribuição do mestre Hermógenes, principal divulgador da ioga no Brasil.

Em virtude da plasticidade que lhes é intrínseca, as manifestações religiosas públicas sempre atraíram grande número de fotógrafos, a maioria dos quais não superou o olhar pitoresco e superficial justamente pela falta de fé, de compaixão ou da real compreensão do sentimento religioso. Assim, muitos produziram imagens destituídas de sentido profundo, incapazes de sensibilizar as pessoas verdadeiramente espiritualizadas. A esse respeito, vale lembrar que nada ilustra melhor a perspectiva comumente equivocada acerca das manifestações religiosas no Brasil quanto o fato de elas serem tradicionalmente enquadradas na categoria de “manifestações folclóricas”. Ora, religião não é folclore. Nunca foi, nem nunca será. Folclórico é o olhar elitista, etnocentrista e preconceituoso de quem encara as manifestações religiosas como folclore.

Marcelo Buainain atua numa vertente inteiramente oposta, impulsionado por preocupações verdadeiramente espiritualistas e guiado por sua personalidade fundamentalmente ecumênica e aberta a todas as manifestações religiosas, sem qualquer tipo de preconceitos ou restrições. Contemplando as magníficas fotografias do ensaio Mi Amas Vin ficamos felizes por Marcelo Buainain ter tomado a temerária decisão de abandonar a medicina em 1987, quando estava no quinto ano de faculdade. Isto porque esse não foi um real abandono da atividade curativa e sim uma expansão, já que ele deixou de ser curador apenas do corpo para se tornar também curador da alma. Transformou-se, portanto, no que Taylor Caldwell denominou em seu conhecido livro sobre o apóstolo Lucas de “médico de homens e de almas”.

Além de ser dono de um estilo próprio e de uma técnica apurada em três décadas de destacada atividade documental, Marcelo Buainain se singulariza entre a nova geração de fotógrafos que se dedicam à documentação dos temas religiosos pelo fato de ser imbuído de real sentimento religioso, da mesma forma que Pierre Verger se destacou em meados do século XX dos seus contemporâneos pela mesma razão. No entanto, Verger se concentrou no candomblé, chegando inclusive a se tornar um oficiante, agraciado com o título de Fatumbi (“renascido pela graça de Ifá”). Por sua vez, Marcelo Buainain não restringiu seu escopo a uma única fé, efetuando uma esplêndida cobertura panorâmica de todas as crenças cultuadas no Brasil, país descrito por Chico Xavier de “pátria do Evangelho”, terra em que florescerá “um pensamento novo, sem as ideologias de separatividades humanas, inundando todos os campos das atividades humanas com uma nova luz”. Terra abençoada, que encontra em Marcelo Buainain um de seus mais perfeitos intérpretes, assim como um dos mais brilhantes apóstolos da visualização ¾ entendida em seu significado primeiro de “transformação de conceitos em imagens reais ou mentalmente visíveis”.

BRAVOS DO REMO

BRAVOS DO REMO recebe no Festival do Minuto o Grande Prêmio do VI FINC (FESTIVAL INTERNACIONAL DE CINEMA DE BAÍA FORMOSA). Trata-se da  história do Remo no Rio Grande do Norte que este ano comemora o seu centenário. O mini documentário assinala o retorno do fotógrafo Marcelo Buainain ao universo do audiovisual, que em 2005 dirigiu para a TV Cultura o filme Hermógenes Deus me Livre de Ser Normal.

 

 

BRAVOS DO REMO foi gravado no rio Potengi, em Natal, sob a direção e fotografia de Marcelo Buainain. A montagem ficou a encargo de Edu Ferr e a direção de conteúdo nas mãos da jornalsita Margot Ferreira e de Marcelo Buainain.

A Comissão Julgadora foi formada por Andrés Bukowinski (publicitário polonês e diretor de cinema), Greg Hajdarowicz (produtor polonês), Renato Ciasca (produtor, roteirista e diretor), Franco de Peña (diretor venezuelano de cinema), Ana Paula Ottoni (diretora de arte), Josenilton Tavares (produtor e cinéfilo).

 

FORA DE FOCO - "DEU JUMENTO" no POYLATAM 2015 - 1º LUGAR


ERA UMA VEZ... contemplado com duas premiações no maior concurso ibero-americano de fotografia. 

1º Lugar - Categoria Cotidiano Individual.

1º LUGAR - CATEGORIA COTIDIANO INDIVIDUAL 

 

Trata-se do  POYLATAM que contou com a participação de 31.100 imagens e 168 multimídias inscritas por candidatos de quase todos os países ibero-americanos.

Premiada com o Primeiro Lugar, na categoria Cotidiano Individual, o destaque foi para a fotografia acima realizada no Estado do Rio Grande do Norte (RN) que flaga um homem capturando um jumento “selvagem” sobre as Dunas. Tenho constatado junto ao público que esta imagem desperta uma certa curiosidade sobre a cena. A título de esclarecimento ela foi realizada no contexto de um programa que objetiva a remoção dos animais soltos nas estradas e dunas do Estado do RN, um projeto incipiente que merece mais atenção, vigilância e maior interesse do governo em busca de uma solução mais concreta para o assunto uma vez que animais e humanos tem sido vítimas de acidente fatais. 

 Já na categoria Retrato o Segundo Lugar foi atribuído para a imagem de um menino ao lado de um jumento, captada no interior do RN durante uma corrida de Jegues. 

 

2ª Lugar - Categoria Retrato

2º LUGAR - CATEGORIA RETRATO INDIVIDUAL 

 

Para aqueles que ainda não conhecem, ERA UMA VEZ... é um projeto de documentação fotográfica desenvolvido no âmbito do prêmio MARC FERREZ de FOTOGRAFIA 2013 cujo enfoque foi resgatar a importância cultural, social e econômica que este animal representou para o nordeste brasileiro. Em nome desse nobre e humilde animal me sinto verdadeiramente honrado com tal conquista, ressaltando que o maior mérito não atribuo ao fotógrafo e sim aos jumentos, aos jegues, que merecem maior atenção uma vez que esta espécie tem sido vítima de maus tratos, abandono e ameaça de extinção.

A versão digital do livro ERA UMA... está disponível para download no site www.buainain.com, aba download. 

 

Uma das imagens submetidas ao concurso.

A edição do POYLATAM deste ano aconteceu no México e foi composta por uma comissão julgadora internacional, entre alguns nomes:

Mike Davis (USA), diretor para Fotografia Documental da Fundação Alexia Tsairis e ex editor da Revista National Geographic.

Magdalena Herrera (Cuba/Francia), diretora de fotografia da Revista Geo francesa e ex-diretora de arte e de fotografia da Revista National Geographic francesa.

 Gary Knight (Inglaterra) fundador y diretor do Programa de Estudos Narrativos e Documental no Instituto de Liderazgo Global de la Universidad de Tufts. Co-fundador da Agência VII, Festival de Angkor e por diversas vezes presidente do corpo de jurados do concurso World Press Photo.

 Tomás Munita (Chile). Fotógrafo documental independente colabortador do New York Times, GEO, Stern, Times e National Geographic. Vencedor de vários prêmios internacionais, entre eles  três vezes o World Press Photo, o POYLATAM e o Oskar Barnack.

 Yolanda Andrade (México) – Estudou fotografia em Rochester, N.Y. Bolsista da Fundação John Simon Guggenheim Memorial Foundation para desenvolver o seu projeto fotográfico sobre a Cidade do México. Autora de vários livros, a sua obra se encontra em acervo de vários museus e instituições importantes do mundo.

 Tiago Santana (Brasil). Um dos fotógrafos mais respeitados do Brasil com vários prêmios e livros publicados. Ao lado de Sebastião Salgado foi o segundo fotógrafo brasileiro a publicar na renomada coleção francesa, Photo Poche. Fundador da Editora Tempo D’Imagem, especializada em fotografia. 

Uma das imagens submetidas ao concurso, Categoria Cotidiano Individual. 

Uma das imagens submetidas ao concurso, Categoria Cotidiano Individual. 


Uma das imagens submetidas ao concurso, Categoria Cotidiano Individual. 

Uma das imagens submetidas ao concurso, Categoria Cotidiano Individual. 

FORA DE FOCO

A convite da REVISTA FOTOGRAFE MELHOR e do FESTIVAL DE FOTOGRAFIA DE TIRADENTES (Foto em Pauta) na próxima semana, na graciosa cidade de Tiradentes - MG - participarei de um bate papo com o editor Sérgio Branco sobre os trabalhos mais importantes da minha carreira, culminando com o lançamento recente livro, Era uma Vez… publicado com apoio do XIII Prêmio Marc Ferrez de Fotografia.

Sejam todos bem vindos

Dia 21 | sábado | 13h30 às 15h no Centro Cultural Yves Alves.


FORA DE FOCO

UM LEGADO PARA A ESPIRITUALIDADE


UM LEGADO PARA A ESPIRITUALIDADE.

Em 2005 tive a benção de dirigir para a TV CULTURA o documentário HERMÓGENES - DEUS ME LIVRE DE SER NORMAL. O filme aborda a vida e obra do professor Hermógenes, considerado o pioneiro da Yoga no Brasil, cujo trabalho tem proporcionado inúmeros benefícios físico e espiritual para aqueles que buscam uma melhor qualidade de vida. Ao longo desses anos várias versões do filme foram postadas na internet com milhares de acessos, algumas completas, outras não. Um tanto atrasado recentemente postei a versão oficial deste filme, sem cortes, exportada diretamente do filme original.

O documentário conta com a presença de Leonardo Boff, Divaldo Pereira Franco, Chico Xavier, Rogério Duarte, Bené Fonteles, Elba Ramalho, Patrícia Dantas, Harbans Lal Arora, Padre Zezinho, Pierre Weill, Alberto Marsicano, Purushatraya Swami e entre tantos outros, os Penitenciários do projeto Mente Livre.

 


FORA DE FOCO - ERA UMA VEZ...

Lançamento do livro e abertura da exposição - ERA UMA VEZ...


No próximo dia 11, quinta feira, na Pinacoteca do Estado do Rio Grande do Norte, abertura da exposição com o lançamento do livro ERA UMA VEZ... Contemplado com o XIII PRÊMIO MARC FERREZ DE FOTOGRAFIA, este projeto presta um tributo ao Jumentos do nordeste brasileiro, o animal que mais serviu ao homem e que hoje está abandonado e condenado ao ostracismo. 

Na sequência o prefácio do livro com uma seleção de algumas das imagens que integram o projeto ERA UMA VEZ...


ERA UMA VEZ...

Em uma das minhas andanças pelo litoral do Rio Grande do Norte, constatei o quanto o patrimônio natural e humano brasileiro está deteriorado. Desse modo, boa parte da paisagem litorânea – que sempre foi referência de beleza e encantamento daquele Estado – e dos manguezais está tomada por uma arquitetura descontextualizada, pelo desmatamento, pela erosão e poluição hídrica. Não há dúvida de que esse desolador quadro é consequência de uma ocupação desordenada da nossa “civilização” e da ausência de uma política em prol da biodiversidade.

Por sua vez, o hospitaleiro nordestino de outrora também já não é mais o mesmo. A simpatia e a hospitalidade que modelavam a natureza desse povo estão engessadas, seja pela natural desconfiança face à violência que assola todo o país, seja pela invasão dos turistas selvagens que se julgam espertos com a prática de sempre tirar vantagens pessoais o que, por sinal, parece estar se tornando um padrão da sociedade brasileira. 

Tomado por um sentimento de impotência, cheguei à triste conclusão de que Era uma vez o nosso litoral! Era uma vez o nosso povo! Era uma vez a esperança de um Brasil gigante, civilizado e exuberante! Assim, à medida que me aprofundava neste trabalho, conversava com as pessoas e documentava as realidades do sertão e litoral, fui compreendendo que o abandono dos jumentos simbolizava o descarte de uma cultura e valores que não precisariam ser desprezados em nome do desenvolvimento. Esse entendimento me levou também a perceber que Era uma vez o jumento, o jegue, o jerico, o burro, o roxinho... Era uma vez esse dócil, humilde e serviçal animal, escolhido por Jesus e louvado pelo Padre Vieira, cantado por Luiz Gonzaga e cordelistas, admirado por Victor Hugo, Dom Pedro e Juan Ramón Jiménez. Era uma vez o protagonista da fabulosa obra literária Platero y Yo, merecedora do Prêmio Nobel de Literatura do ano de 1956. Era uma vez o animal que durante séculos foi responsável pela construção dos açudes e por tantos outros serviços. 

Nesse cenário, é sombria a sina dessa espécie submetida até mesmo a iniciar jovens nas suas primeiras experiências sexuais! Quantos dos nossos políticos nordestinos aposentados, ou que ainda hoje ocupam as câmaras, não passaram por essa experiência no sertão, em suas fazendas, que serviram como feudo e reserva de votos de cabresto? 

Era uma vez....” é um registro sobre um personagem que exerceu papel fundamental para o desenvolvimento do nordeste brasileiro, um resgate fotográfico que nos faz recordar a sua importância social, econômica e cultural. “Era uma vez...” conta a história de um animal que hoje está condenado ao ostracismo ou ao abate nos frigoríficos da China e do Brasil. 

Como ternamente o sacralizou o Rei do Baião, “Quer queira, quer não, o JUMENTO é nosso irmão!”           

Marcelo Buainain, 2014


 

 

 

 

 
 

FORA DE FOCO - EXPO " MI AMAS VIN" - MONTEVIDEO.

No próximo dia 26 de setembro, às 20 Horas, em Montevideo abre a exposição MI AMAS VIN. Antecedendo este evento haverá o ENCUENTRO CON EL AUTOR, às 18:30. Para aqueles que puderem comparecer será um prazer compartilhar esta charla.  O horário e o endereço estão no convite, canto superior esquerdo. 

Mais informações sobre o projeto MI AMAS VIN na sessão Multimídia e  Book deste site. 



FORA DE FOCO - OLHARES

No início da década de 90 por um curto período estive radicado na capital francesa. Um dia, como um outro qualquer, caminhando pelos belos recantos daquela fascinante cidade, fui tomado por uma certa revolta de puro tom nacionalista ao ler uma reportagem publicada na GEO francesa sobre o meu país.  

Em página dupla se abria uma longa matéria estampando a seguinte realidade: BRASIL UMA SOCIEDADE INFLUENCIADA PELA TELEVISÃO. Visionária matéria publicada há mais de vinte anos, provavelmente na época ainda nem parabólica existia.... 

Este retrato foi realizado recentemente em um assentamento no interior do Estado do Rio Grande do Norte. Outros poderão ser vistos na Sessão Portrait deste site, em http://www.buainain.com/retratos1/

FORA DE FOCO - ENTREVISTA

PAPO COM LUZ - ENTREVISTA


Thiago Albuquerque, fotógrafo atualmente residente no Canadá no início do ano me escreveu convidando para participar de uma entrevista no Papo com Luz. Embora fossem apenas cinco perguntas, como estava envolvido em outros projetos - aliás, estamos sempre assim - aceitei o honroso convite na condição de que as perguntas fossem respondidas diante da minha disponibilidade e paz de espírito. Thiago aceitou e exerceu a virtude da paciência.... Segue aqui a entrevista publicada no site Fotografia em Comum, a seleção das imagens também ficaram a critério do editor. 

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Marcelo Buainain abandonou o quinto ano da faculdade de medicina para mergulhar na fotografia com uma disciplina e empenho que serve de referência para todos nós. O caminho escolhido é constantemente confirmado com a conquista do reconhecimento diante da sua produção fotográfica. Ganhador de inúmeros prêmios nacionais e internacionais, Buainain conta aqui um pouco sobre a sua maneira de enxergar o mundo.

FC: Marcelo, sua fotografia é fortemente embasada na figura humana como personagem central de suas composições. Fotografar o outro pode ser visto como um processo de descoberta de si mesmo?

MB: Embora acredite na universalidade do homem, entre os temas que habitualmente abordo não existe uma relação direta com a minha história social. Cresci no seio de uma classe privilegiada com acesso à educação, saúde, alimentação e formação ética. Em contrapartida, os locais e personagens que documento são privados das necessidades mais básicas que asseguram a dignidade humana. Essa dicotomia de realidades provoca um questionamento mais amplo, ultrapassando as fronteiras do meu self.

FC: O que a fotografia trouxe para você e para onde ela te leva?

MB: Abandonei o 5º ano do curso de medicina acreditando que me faltava vocação para exercer esta nobre profissão. Como alternativa busquei a fotografia convicto de que ela me traria realização profissional e liberdade de expressão. Hoje, passado quase 30 anos faço um balanço positivo na escolha sobretudo porque carrego a tranquilidade de nunca ter levado ninguém à óbito por iatrogenia médica.
Graças à fotografia tive oportunidade de conhecer diferentes culturas, em especial na Índia onde convivi com homens simples e verdadeiros sábios que me levaram a um despertar espiritual. No Brasil, ao documentar as religiões amazônicas – aquelas que consagram a bebida ayahuasca – tive a chance de participar de algumas cerimônias nas igrejas do Santo Daime e da Barquinha vivenciando uma experiência mística importante para a minha evolução.
A fotografia também me levou à lugares mágicos deste planeta, a exemplo do pantanal onde comecei a fotografar descobrindo a poesia e o poeta Manuel de Barros. Em Portugal, onde vivi quase uma década, também tive oportunidade de fotografar várias celebridades, algumas se tornaram amigos com quem me relaciono até hoje. A fotografia é uma espécie de trampolim para a construção de novas amizades. Os fotógrafos, quando não são tomados pelo sentimento da inveja, em geral existe uma grande admiração entre eles e é graças à fotografia que hoje tenho amigos que considero verdadeiros irmãos.
Concluindo a sua pergunta, a fotografia me trás e me direciona à estado meditativo e de concentração, durante o ato de fotografar sou tomado por emoções que me proporcionam muita paz e realização.

FC: A arte em sua essência para alguns pensadores é uma tentativa de encontrar um significado transcendente na vida. A fotografia apresenta esse mesmo trajeto para você?

MB: Quando fotografo não busco a transcendência ou nada além da intenção inicial de documentar e expressar uma temática. Penso que graças a paixão com a qual tenho realizado o meu trabalho por consequência sou brindado por este estado de transcendência, talvez o mesmo especulado pelos pensadores.

FC: A fotografia como ferramenta de linguagem de extrema força, está hoje aparentemente, ao alcance de muitos. O que ainda é possível transmitir através de uma imagem dentro de um mundo com tantas?

MB: O mundo contemporâneo está contaminado por inúmeras enfermidades físicas e morais. Sem precedentes na história, vivemos uma enorme crise de valores que tem levado o homem ao vazio e à infelicidade. Como o advento das novas tecnologias, a democratização do seu acesso e lançamento de uma diversidade de gadgets, é assombroso o volume de imagens produzidas diariamente no mundo. Entretanto diante de todo esse universo e caos imagético penso que ainda seja possível – e necessário – transmitir a poesia, a vida e a verdadeira essência através da arte.

FC: Existem “Instantes decisivos” na fotografia e na vida, quando esses momentos se encontram?

MB: Il n’y a que ça, diria os franceses. Acredito que em nossas vidas, tudo que realizamos e colhemos é consequência dos “momentos decisivos” aos quais estamos constantemente vulneráveis e sob desafios. Existe um conjunto de requisitos para a construção de uma boa fotografia, entre eles o momento decisivo tão exercitado por Cartier-Bresson. Assim me parece ser a vida.

Fora de Foco - O Oneroso Preço da Humilhação

O Oneroso Preço da Humilhação

No mundo as manchetes dos principais jornais destacam os resultados dos jogos do Brasil frente a Alemanha e Holanda como “a maior humilhação sem precedente na história do mundial”. Que vergonha! Um preço demasiado caro para uma população carente em educação, hospital, segurança e valores morais. Naturalmente que a conta desta leviana, insana e oportunista ideia de realizar o mundial no Brasil ainda não foi liquidada, o débito moral em pouco tempo será esquecido, porém o financeiro implacavelmente  o sentiremos durante os próximos anos e décadas.  

São infindáveis os caracteres sobre este assunto que nos causa uma certa ressaca e revolta. Porém como brasileiro e fotógrafo me limito à publicação dessas simbólicas fotografias, realizada no Estado da Bahia, acompanhada de um texto cujo autor desconheço.

Isso representa mais que um simples jogo! Representa a vitória da competência sobre a malandragem! Serve de exemplo para gerações de crianças que saberão que pra vencer na vida tem-se que ralar, treinar, estudar! Acabar com essa história de jeitinho malandro do brasileiro, que ganha jogo com seu gingado, ganha dinheiro sem ser suado, vira presidente sem ter estudado! O grande legado desta copa é o exemplo para gerações do futuro! Que um país é feito por uma população honesta, trabalhadora, e não por uma população transformada em parasita por um governo que nos ensina a receber o alimento na boca e não a lutar para obtê-lo!  A Alemanha ganha com maestria e merecimento! Que nos sirva de lição! Pátria amada Brasil tem que ser amada todos os dias, no nosso trabalho, no nosso estudo, na nossa honestidade! Amar a pátria em um jogo de futebol e no outro dia roubar o país num ato de corrupção, seja ele qual for, furando uma fila, sonegando impostos, matando, roubando! Que amor à pátria é este! Já chega!!! O Brasil cansou de ser traído por seu próprio povo! Que sirva de lição para que nos agigantemos para construirmos um país melhor! Educar nossos filhos pra uma geração de vergonha! Uma verdadeira nação que se orgulha de seu povo, e não só de seu futebol!!”

LEMBRO ME

Revelo um especial interesse por esta fotografia, talvez despertado pelo contraste de liberdade com que os pássaros voam em um cenário ocupado por reféns sem as mesmas chances e merecimentos das aves. Sentimentos como este, a dignidade com que esta mulher realiza o seu trabalho e a harmonia com que os elementos dialogam na construção da imagem me motivaram a escrever essas recordações que guardo há 15 anos.

 

Lembro me que foi casual a chegada ao local, tratava se da minha primeira visita a Calcutá, capital indiana do estado west bengal. Durante esta jornada a busca por temáticas nas periferias e parques se tornou uma estratégia que desenvolvi e da qual muito me servi para sobreviver às adversidades e desafios das megalópoles.

O bisbilhoteiro e imprescindível Mr Google ainda não havia se apresentado à nós, tampouco às máquinas digitais. Foi desdobrando o mapa da capital bengal que o meu olhar se lançou em direção ao norte e sem muito hesitar defini para onde iria me aventurar, sem a ideia precisa do que encontraria. Com o auxílio de um taxi alcancei o destino descobrindo uma fábrica de tijolos situada à margem do rio Hooglhy, um importante tributário do Ganges onde homens, mulheres e crianças trabalhavam. Acompanhado pelos deuses hindus e a sorte, lembro-me que naquele dia vi as embarcações atracadas com grande quantidade de barro, a matéria prima fundamental para o abastecimento das fábricas de tijolos. Homens descarregavam a argila escura que mais tarde se transformaria em tijolo, casas, edifícios e etc.

 

Não muito distante daquele largo e místico fio de água que inexoravelmente corria para mar, mulheres e crianças descalças  - sim, crianças, e por sinal algumas bastante novas - carregavam pilhas de tijolos como se fossem burros de carga (com todo respeito às mulheres e a este nobre animal tão dócil e serviçal).

 

Sobre as cabeças o número de tijolos variava, os adultos carregavam duas pilhas com 8 ou 10 unidades; já os menores, dependendo da idade, uma única pilha com dois ou quatro. O miserável e essencial salário estava condicionado à produção individual ou familiar.

 

Às crianças outras tarefas também lhes eram destinadas, além da carga da argila e dos tijolos. Com as suas pequeninas mãos e braços fortes amassavam o barro  para depois, com o auxílio de uma forma de madeira, moldar os tijolos que posteriormente seriam transportados até aos fornos para a queima.

 

Este exaustivo e sincronizado vai e vem dos homens,  mulheres e crianças me lembrava uma coreografia a céu aberto, cujo o único espectador era eu, o fotógrafo; motivada por uma única razão, a garantia da sobrevivência daquelas famílias exploradas e submissas às condições desumanas.

 

Passado tantos anos e com a globalização do planeta me pergunto se ainda espetáculos desta natureza se apresentam às margens do majestoso Hooglhy. Sinceramente, receio que a resposta seja sim.