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FORA DE FOCO - ERA UMA VEZ...

Lançamento do livro e abertura da exposição - ERA UMA VEZ...


No próximo dia 11, quinta feira, na Pinacoteca do Estado do Rio Grande do Norte, abertura da exposição com o lançamento do livro ERA UMA VEZ... Contemplado com o XIII PRÊMIO MARC FERREZ DE FOTOGRAFIA, este projeto presta um tributo ao Jumentos do nordeste brasileiro, o animal que mais serviu ao homem e que hoje está abandonado e condenado ao ostracismo. 

Na sequência o prefácio do livro com uma seleção de algumas das imagens que integram o projeto ERA UMA VEZ...


ERA UMA VEZ...

Em uma das minhas andanças pelo litoral do Rio Grande do Norte, constatei o quanto o patrimônio natural e humano brasileiro está deteriorado. Desse modo, boa parte da paisagem litorânea – que sempre foi referência de beleza e encantamento daquele Estado – e dos manguezais está tomada por uma arquitetura descontextualizada, pelo desmatamento, pela erosão e poluição hídrica. Não há dúvida de que esse desolador quadro é consequência de uma ocupação desordenada da nossa “civilização” e da ausência de uma política em prol da biodiversidade.

Por sua vez, o hospitaleiro nordestino de outrora também já não é mais o mesmo. A simpatia e a hospitalidade que modelavam a natureza desse povo estão engessadas, seja pela natural desconfiança face à violência que assola todo o país, seja pela invasão dos turistas selvagens que se julgam espertos com a prática de sempre tirar vantagens pessoais o que, por sinal, parece estar se tornando um padrão da sociedade brasileira. 

Tomado por um sentimento de impotência, cheguei à triste conclusão de que Era uma vez o nosso litoral! Era uma vez o nosso povo! Era uma vez a esperança de um Brasil gigante, civilizado e exuberante! Assim, à medida que me aprofundava neste trabalho, conversava com as pessoas e documentava as realidades do sertão e litoral, fui compreendendo que o abandono dos jumentos simbolizava o descarte de uma cultura e valores que não precisariam ser desprezados em nome do desenvolvimento. Esse entendimento me levou também a perceber que Era uma vez o jumento, o jegue, o jerico, o burro, o roxinho... Era uma vez esse dócil, humilde e serviçal animal, escolhido por Jesus e louvado pelo Padre Vieira, cantado por Luiz Gonzaga e cordelistas, admirado por Victor Hugo, Dom Pedro e Juan Ramón Jiménez. Era uma vez o protagonista da fabulosa obra literária Platero y Yo, merecedora do Prêmio Nobel de Literatura do ano de 1956. Era uma vez o animal que durante séculos foi responsável pela construção dos açudes e por tantos outros serviços. 

Nesse cenário, é sombria a sina dessa espécie submetida até mesmo a iniciar jovens nas suas primeiras experiências sexuais! Quantos dos nossos políticos nordestinos aposentados, ou que ainda hoje ocupam as câmaras, não passaram por essa experiência no sertão, em suas fazendas, que serviram como feudo e reserva de votos de cabresto? 

Era uma vez....” é um registro sobre um personagem que exerceu papel fundamental para o desenvolvimento do nordeste brasileiro, um resgate fotográfico que nos faz recordar a sua importância social, econômica e cultural. “Era uma vez...” conta a história de um animal que hoje está condenado ao ostracismo ou ao abate nos frigoríficos da China e do Brasil. 

Como ternamente o sacralizou o Rei do Baião, “Quer queira, quer não, o JUMENTO é nosso irmão!”           

Marcelo Buainain, 2014