blog

FORA DE FOCO - ENTREVISTA

PAPO COM LUZ - ENTREVISTA


Thiago Albuquerque, fotógrafo atualmente residente no Canadá no início do ano me escreveu convidando para participar de uma entrevista no Papo com Luz. Embora fossem apenas cinco perguntas, como estava envolvido em outros projetos - aliás, estamos sempre assim - aceitei o honroso convite na condição de que as perguntas fossem respondidas diante da minha disponibilidade e paz de espírito. Thiago aceitou e exerceu a virtude da paciência.... Segue aqui a entrevista publicada no site Fotografia em Comum, a seleção das imagens também ficaram a critério do editor. 

2014-08-22 09.37.32.jpg

Marcelo Buainain abandonou o quinto ano da faculdade de medicina para mergulhar na fotografia com uma disciplina e empenho que serve de referência para todos nós. O caminho escolhido é constantemente confirmado com a conquista do reconhecimento diante da sua produção fotográfica. Ganhador de inúmeros prêmios nacionais e internacionais, Buainain conta aqui um pouco sobre a sua maneira de enxergar o mundo.

FC: Marcelo, sua fotografia é fortemente embasada na figura humana como personagem central de suas composições. Fotografar o outro pode ser visto como um processo de descoberta de si mesmo?

MB: Embora acredite na universalidade do homem, entre os temas que habitualmente abordo não existe uma relação direta com a minha história social. Cresci no seio de uma classe privilegiada com acesso à educação, saúde, alimentação e formação ética. Em contrapartida, os locais e personagens que documento são privados das necessidades mais básicas que asseguram a dignidade humana. Essa dicotomia de realidades provoca um questionamento mais amplo, ultrapassando as fronteiras do meu self.

FC: O que a fotografia trouxe para você e para onde ela te leva?

MB: Abandonei o 5º ano do curso de medicina acreditando que me faltava vocação para exercer esta nobre profissão. Como alternativa busquei a fotografia convicto de que ela me traria realização profissional e liberdade de expressão. Hoje, passado quase 30 anos faço um balanço positivo na escolha sobretudo porque carrego a tranquilidade de nunca ter levado ninguém à óbito por iatrogenia médica.
Graças à fotografia tive oportunidade de conhecer diferentes culturas, em especial na Índia onde convivi com homens simples e verdadeiros sábios que me levaram a um despertar espiritual. No Brasil, ao documentar as religiões amazônicas – aquelas que consagram a bebida ayahuasca – tive a chance de participar de algumas cerimônias nas igrejas do Santo Daime e da Barquinha vivenciando uma experiência mística importante para a minha evolução.
A fotografia também me levou à lugares mágicos deste planeta, a exemplo do pantanal onde comecei a fotografar descobrindo a poesia e o poeta Manuel de Barros. Em Portugal, onde vivi quase uma década, também tive oportunidade de fotografar várias celebridades, algumas se tornaram amigos com quem me relaciono até hoje. A fotografia é uma espécie de trampolim para a construção de novas amizades. Os fotógrafos, quando não são tomados pelo sentimento da inveja, em geral existe uma grande admiração entre eles e é graças à fotografia que hoje tenho amigos que considero verdadeiros irmãos.
Concluindo a sua pergunta, a fotografia me trás e me direciona à estado meditativo e de concentração, durante o ato de fotografar sou tomado por emoções que me proporcionam muita paz e realização.

FC: A arte em sua essência para alguns pensadores é uma tentativa de encontrar um significado transcendente na vida. A fotografia apresenta esse mesmo trajeto para você?

MB: Quando fotografo não busco a transcendência ou nada além da intenção inicial de documentar e expressar uma temática. Penso que graças a paixão com a qual tenho realizado o meu trabalho por consequência sou brindado por este estado de transcendência, talvez o mesmo especulado pelos pensadores.

FC: A fotografia como ferramenta de linguagem de extrema força, está hoje aparentemente, ao alcance de muitos. O que ainda é possível transmitir através de uma imagem dentro de um mundo com tantas?

MB: O mundo contemporâneo está contaminado por inúmeras enfermidades físicas e morais. Sem precedentes na história, vivemos uma enorme crise de valores que tem levado o homem ao vazio e à infelicidade. Como o advento das novas tecnologias, a democratização do seu acesso e lançamento de uma diversidade de gadgets, é assombroso o volume de imagens produzidas diariamente no mundo. Entretanto diante de todo esse universo e caos imagético penso que ainda seja possível – e necessário – transmitir a poesia, a vida e a verdadeira essência através da arte.

FC: Existem “Instantes decisivos” na fotografia e na vida, quando esses momentos se encontram?

MB: Il n’y a que ça, diria os franceses. Acredito que em nossas vidas, tudo que realizamos e colhemos é consequência dos “momentos decisivos” aos quais estamos constantemente vulneráveis e sob desafios. Existe um conjunto de requisitos para a construção de uma boa fotografia, entre eles o momento decisivo tão exercitado por Cartier-Bresson. Assim me parece ser a vida.