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LEMBRO-ME

"Tudo que eu não invento é falso"

 

Lembro-me que éramos vizinhos. Vivíamos em um pacato bairro de elite localizado na capital do Estado do Mato Grosso do Sul. Um enigmático muro nos separava, e isso me faz recordar dos momentos de privacidade que não vivi no quintal da casa de meus pais. É que a janela do poeta, o seu “quarto de ser inútil”, se debruçava sobre nosso jardim me intimidando em qualquer anseio de liberdade ou de realizar – por que não? – aqueles pequenos atos de libertinagem normalmente tão desejados pelos jovens recém-saídos da adolescência, como eu era. 

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Lembro-me do dia em que adentrei a casa deste meu vizinho, o poeta Manoel de Barros, pela primeira vez. Estava a serviço da revista espanhola El Paseante quando invadi  o seu lugar de ser inútil para fotografa-lo. Foi precisamente neste momento que enfim desvendei o mistério da janela indiscreta, descobrindo que ela não representava ameaça alguma à minha privacidade.

Lembro-me da aversão do poeta em ser fotografado, do seu pavor em “falar com ferro” (microfones) e da sua exacerbada timidez, a qual contribuiu para que eu me tornasse o seu “fotógrafo oficial”. Lembro-me que, vagarosamente, uma sincera amizade se alinhava entre o poeta que ainda vivia na eminência da sua consagração, e este sonhador fotógrafo que recém trocara o 5º ano do curso de medicina pela fotografia. 

O poeta no seu "lugar de ser inútil".

Lembro-me das inúmeras tardes que desfrutei na casa desse meu vizinho, o “Caramujo Flor”, como era tratado pelo cineasta Joel Pizzini, cuja poesia inspirada nas pequenas coisas ganhou encorpada envergadura. Como poderia me esquecer das tardes de insignificâncias vividas com o poeta, das conversas jogadas fora sobre temas diversos, entre eles o risco que a exuberância do Pantanal pode provocar na obra de um autor desatento?

Lembro-me da carta que o poeta me escreveu. Um rascunho esboçando um roteiro poético-fotográfico, um guia para o nosso projeto de livro sobre o Pantanal onde a fotografia dialogaria com a poesia e vice-versa. Que pena, um sonho que não se concluiu em decorrência da minha mudança para a Europa.

Inocência do seu sorriso de menino

Lembro-me muito bem, anos depois, já no Velho Continente, em Lisboa, eu fotografava uma entrevista exclusiva do escritor José Eduardo Agualusa quando ele fez uma referência ao poeta mato-grossense. Enchi-me de orgulho e não pude deixar de anunciar que se tratava de um ex-vizinho meu, um amigo por cuja obra eu também tinha grande simpatia e admiração. Incrédulo – assim ficou, por um bom tempo, o angolano Agualusa para quem, meses mais tarde, promovi um encontro com o poeta.

Tal empatia pelo meu vizinho me faz lembrar das tentativas em persuadir um amigo a musicalizar a obra de Manoel de Barros. Felizmente, a persuasão está hoje materializada no CD Crianceiras, com arranjos do músico Márcio Decamillo. Obrigado Decamillo, enfim alguém me ouviu....

A misteriosa janela que dava para o quintal da casa dos meus pais

Lembro-me do quanto persisti e insisti ao bater à porta dos editores brasileiros e estrangeiros sugerindo pautas com o “poeta do pantanal”, até então pouco conhecido. Ora, esses esforços não foram em vão, pois lembro-me muito bem da ansiedade com que aguardei a publicação da reportagem O Poeta do Pantanal, estampada em várias páginas da revista Manchete, todas ilustradas com as fotografias daquele fotógrafo sonhador que nunca deixou de acreditar na grandeza da poesia do seu vizinho.

Entre tantas lembranças do poeta, uma, em especial, está impregnada na minha memória e nas fotografias que refletem a inocência do seu sorriso de menino, suas doces gargalhadas e a sua serenidade ao mencionar o nome de Bernardo, o seu alter ego, homem primitivo do pantanal com quem Manoel dividiu a infância na fazenda dos seus pais e quem também tive a felicidade de conhecer e fotografar.

Lembro-me também da data de aniversário deste sagitariano, como eu, que no próximo dia 19 completará 97 anos. Parabéns Manoel!

 São tantas as lembranças que não caberiam neste post, talvez todas inúteis para serem guardadas ou lembradas, pois como diria o poeta, “ando muito completo de vazio”.

O poeta e a mineira Dona Estela, a sua inseparável companheira