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LEMBRO-ME

Caras e Pessoas

Esse foi o título de um projeto que durante a década de 90 realizei em Portugal e que tinha como objetivo documentar personalidades portuguesas em duas situações que pudessem de certa forma revelar as distintas personas que carregamos. A idéia era que em uma das fotografias o retratado se apresentasse de forma inusitada, e porque não com uma careta ou a língua para fora, a exemplo do emblemático retrato de Albert Einstein. Como se tratava de personalidades, naturalmente o então presidente Mário Soares não poderia ficar de fora. Fotogênico e acessível, topou ser modelo para um desconhecido fotógrafo brasileiro. Lá fui eu.

DIPTICO MARIO SOARES.jpg

O "circo" estava armado. O fundo preto de tecido já estava erguido, as luzes do infalível  Broncolor afinadas, os backs da Hasselblad carregados com filmes de 12 poses e prontos para serem disparados, a poltrona onde o presidente sentaria milimetricamente colocada, as cortinas que escureceriam a sala já fechadas. Penso que, a exceção da tranquilidade que não pairava sobre o fotógrafo, tudo estava pronto para o momento que não tinha nada a ver com o “momento decisivo”, magistralmente propagado pelo fotógrafo francês Henri Cartier Bresson. Aquela não era uma sessão de street photography, na qual certamente eu estaria bem mais à vontade...


Tudo estava pronto, assim acreditava eu. Lembro-me então de ter dado o comando final que seria quase impossível recuar. “Chame se faz favor o presidente”, assim gentilmente me dirigi à amável pessoa que o assessorava, já não me recordo se era um senhor ou uma senhora. Lembro-me sim de que, passado alguns minutos, a figura do presidente Mário Soares ganha corpo e alma naquela suntuosa sala do palácio. Meu primeiro encontro, cara a cara, com aquele presidente de república havia então se tornado uma realidade.

Lembro-me que a sessão foi rápida, não cheguei a finalizar o segundo rolo de filme. A primeira série fotográfica foi realizada com sucesso, foi então que lancei ao presidente o desafio de uma proposta atrevida que seria fotografar a sua bochecha, fazendo assim alusão ao seu apelido “bochecha”.

O desafio foi aceito e com certo humor. Isto implicou numa “rápida” mudança do posicionamento das luzes e quando tudo estava pronto para começar a segunda sessão senti que o presidente não estava! Meu DEUS! Pânico total! Olhei para o presidente e lá estava ele dormindo na poltrona, fato normal para muitos portugueses já habituados às suas sonecas durante as aborrecidas sessões e reuniões políticas. Como um relâmpago que acende e apaga, fiz um ligeiro rastreio de toda a minha carreira na esperança de ter lido algum livro técnico cujo lição tivesse me ensinado o delicado tema de como se deve acordar um presidente da república. Rapidamente cheguei a conclusão que esta obra era ficção, se existia eu ainda não havia lido. Sem alternativas fiz um sucessivo disparo do flash que jamais me esquecerei. Lembro-me de que o retratado não foi muito receptivo à aquela ofuscante luz que acabara de o derrubar do colo de Morfeu, mas foi assim que acordei o presidente... Ele inflou a bochecha e eu, click nela. A bochecha do bochecha Mário Soares.