blog

FORA DE FOCO - Mi Amas Vin - Krakow Film Festival

MI AMAS VIN é o título de uma exposição e livro (esgotado) que após percorrer salas do Brasil e do Uruguai chegará no próximo mês ao público da Cracóvia, Polônia. A mostra será apresentada no âmbito do Festival NETIA OFF CAMERA (Festival Independente de Cinema) onde o curta  Bravos do Remo também será exibido. 

Neste post  estão as  pranchas com a edição das 21 fotografias que serão apresentadas nesta ordem. Disponibilizo também o sensível texto de autoria de Pedro Vasquez que foi publicado no livro Mi AMAS VIN.  A obra Mi Amas Vin foi contemplada em 2013 no POY LATAM com a Menção Honrosa na categoria de  "Melhor Livro". 


Por Pedro Afonso Vasquez

Como fotografar o invisível? Como expressar o indizível? Seria realmente possível oferecer um vislumbre do universo metafísico através de um meio de expressão tão atrelado ao mundo visível quanto a fotografia?

Esses são os maiores desafios para aqueles que ambicionam fazer da fotografia algo mais que um espelho fidedigno do real. Desafios que somente um restrito contingente de fotógrafos soube enfrentar com sucesso, entre os quais figuram Julia Margaret Cameron, Edward Sheriff Curtis, Carleton Watkins, Eugène Atget, Alfred Stieglitz, Henri Cartier-Bresson, Josef Sudek, Duane Michals, Minor White e Paul Caponigro. Autores que comprovaram cabalmente que a fotografia também pode ser empregada como instrumento de representação do plano espiritual, nos oferecendo alumbramentos que podem ser comparados a lampejos de inspiração divina.

Por falar em iluminação, é interessante constatar como o jargão técnico fotográfico encontra ressonância na linguagem figurada do misticismo. Nem sempre as palavras são sinônimas, porém diversas são homônimas e muitas podem ser entendidas com sentido idêntico ou bastante similar. O próprio termo fotografia tem a acepção de “escrita da luz” ou “escrita com a luz”, o que lhe confere uma conotação positiva, transcendente e adequada para tratar da condição humana caso aceitemos a hipótese de que a vida humana ¾ nossa missão no plano terreno ¾ seja um movimento das trevas para a luz. Tanto em fotografia quanto na iniciação espiritual a questão essencial é ser capaz de enxergar aquilo que os outros não conseguem perceber, de ser dotado daquilo que Jesus Cristo qualificou de “olhos de ver”. Não há fotografia sem luz, da mesma forma que não há efetiva evolução espiritual sem iluminação, termo que os místicos costumam usar no mesmo sentido de revelação. Ou seja, a capacidade de vislumbrar enfim o que sempre esteve ali, mas não era percebido em virtude de alguma limitação do próprio observador. Em fotografia, revelação é o ato de tornar visível a “imagem latente” já registrada no filme ou no papel fotográfico, porém ainda invisível pela falta de um agente revelador. Na dimensão humana também trazemos dentro de nós aquilo que já somos embora ainda não o saibamos, o que o mestre Masaharu Taniguchi (fundador da Seicho-No-Ie) chama de “imagem da perfeição verdadeira”, aguardando apenas sua exteriorização.

Por circunstâncias históricas ligadas à colonização de nosso território, a maioria das correntes religiosas que vicejou no Brasil não fazia restrições às representações icônicas e tolerava o registro visual (fotográfico, cinematográfico ou videográfico) de seus rituais internos e festas públicas. Seitas e religiões empregam signos altamente codificados cujo significado profundo pode escapar até mesmo ao comum dos fiéis, o qual se reconhece e se espelha nos símbolos das suas crenças, mas é incapaz de explicar suas origens. Já para o observador externo, sobretudo se for um indivíduo destituído de qualquer sentimento religioso, o comportamento ritualístico dos fiéis pode se assemelhar a uma pantomima destituída de sentido prático. Aos olhos dos incréus e dos irreverentes tudo se confunde e se embaralha, pois é de fato difícil entender a multiplicidade dos recursos empregados pelas diferentes culturas para efetuar aquilo que consiste no propósito único da religião, conforme explicitado na origem latina do termo religare: “restabelecer a ligação com o divino”. Assim, para fotografar as manifestações religiosas com verdadeira eficiência é preciso ser dotado de um profundo sentimento religioso, como o testemunhado por Marcelo Buainain em sua brilhante série Mi Amas Vin. Conforme ele próprio citou como fator motivador deste trabalho:

 

Talvez ainda impregnado pela atmosfera espiritualista da Índia, foi em Salvador, durante a festa de santa Luzia, padroeira dos olhos, que fui tomado de forte sentimento e compreensão de que eu deveria me dedicar exclusivamente a fotografar temas relacionados à religiosidade. Apesar de não ser devoto de santa Luzia, o significado do nome Buainain é “pai dos olhos”.

 

Foi, portanto, por uma espécie de predestinação que Marcelo Buainain se dedicou ao registro das manifestações religiosas nacionais, depois de já ter dado provas de seu pendor para o tema no excelente livro Índia: quantos Olhos tem uma Alma (2000), assim como nos dois comoventes e inspiradores documentários realizados em meados na década passada _ Do lodo ao lótus e Deus me livre de ser normal_, ambos girando em torno da inestimável contribuição do mestre Hermógenes, principal divulgador da ioga no Brasil.

Em virtude da plasticidade que lhes é intrínseca, as manifestações religiosas públicas sempre atraíram grande número de fotógrafos, a maioria dos quais não superou o olhar pitoresco e superficial justamente pela falta de fé, de compaixão ou da real compreensão do sentimento religioso. Assim, muitos produziram imagens destituídas de sentido profundo, incapazes de sensibilizar as pessoas verdadeiramente espiritualizadas. A esse respeito, vale lembrar que nada ilustra melhor a perspectiva comumente equivocada acerca das manifestações religiosas no Brasil quanto o fato de elas serem tradicionalmente enquadradas na categoria de “manifestações folclóricas”. Ora, religião não é folclore. Nunca foi, nem nunca será. Folclórico é o olhar elitista, etnocentrista e preconceituoso de quem encara as manifestações religiosas como folclore.

Marcelo Buainain atua numa vertente inteiramente oposta, impulsionado por preocupações verdadeiramente espiritualistas e guiado por sua personalidade fundamentalmente ecumênica e aberta a todas as manifestações religiosas, sem qualquer tipo de preconceitos ou restrições. Contemplando as magníficas fotografias do ensaio Mi Amas Vin ficamos felizes por Marcelo Buainain ter tomado a temerária decisão de abandonar a medicina em 1987, quando estava no quinto ano de faculdade. Isto porque esse não foi um real abandono da atividade curativa e sim uma expansão, já que ele deixou de ser curador apenas do corpo para se tornar também curador da alma. Transformou-se, portanto, no que Taylor Caldwell denominou em seu conhecido livro sobre o apóstolo Lucas de “médico de homens e de almas”.

Além de ser dono de um estilo próprio e de uma técnica apurada em três décadas de destacada atividade documental, Marcelo Buainain se singulariza entre a nova geração de fotógrafos que se dedicam à documentação dos temas religiosos pelo fato de ser imbuído de real sentimento religioso, da mesma forma que Pierre Verger se destacou em meados do século XX dos seus contemporâneos pela mesma razão. No entanto, Verger se concentrou no candomblé, chegando inclusive a se tornar um oficiante, agraciado com o título de Fatumbi (“renascido pela graça de Ifá”). Por sua vez, Marcelo Buainain não restringiu seu escopo a uma única fé, efetuando uma esplêndida cobertura panorâmica de todas as crenças cultuadas no Brasil, país descrito por Chico Xavier de “pátria do Evangelho”, terra em que florescerá “um pensamento novo, sem as ideologias de separatividades humanas, inundando todos os campos das atividades humanas com uma nova luz”. Terra abençoada, que encontra em Marcelo Buainain um de seus mais perfeitos intérpretes, assim como um dos mais brilhantes apóstolos da visualização ¾ entendida em seu significado primeiro de “transformação de conceitos em imagens reais ou mentalmente visíveis”.