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LEMBRO-ME

Lembro-me que a pequena localidade de Puri, situada há 60 Km da capital do Estado de Orissa – Índia - foi em 1999 um refúgio Zen onde pude psicologicamente me refazer do stress vivenciado em Calcutá, considerada a 3ª cidade mais populosa do país, com uma população de quase 15 milhões de habitantes.

Recém chegado na praia de Puri já desfrutava da sensação de ter aterrado no paraíso. Ali, o caótico trânsito e as ensurdecedoras buzinas da capital de West Bengal rapidamente foram substituídos pelo singelo toque das campainhas dos rickshaws e das bicicletas. A densa massa humana de Calcutá que quase me levou a loucura havia se evaporado, em Puri a minha alma encontrou o silêncio que tanto precisava e ali me redescobri.

Para os hindus este local é sagrado e de grande importância na sua tradição graças ao Templo de Jagannath (Lord of the Universe), construído no local durante o século XI. Eu como admirador de Paramahansa Yogananda, o guru indiano autor do best seller Autobiografia de um Yogue, aquele local para mim, mesmo não sendo hindu, também vibrava de uma forma especial. Em 1903, Sri Yukteswar, o Guru de Yogananda, fundava em Puri um ashram e ali, anos mais tarde, em 9 de março de 1936 ele deixava a terra.

Durante os dias que ali estive não pude visitar o templo de Jagannath,  restritos apenas para os hindus. Entretanto nesta praia, sozinho, através do exercício de fotografar pratiquei horas de meditação e mergulho interno. Foi ali que me recuperei de todo stress, revigorado estava pronto para novamente enfrentar a crazy Calcutá por onde fiquei vários dias fotografando. 

LEMBRO-ME

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LEMBRO-ME muito bem deste fato, como poderia esquece-lo? O atual momento brasileiro, tomado por manifestações populares, remete-me a abril de 2000, onde no extremo sul da Bahia, na ocasião das comemorações dos 500 anos de “descobrimento” do Brasil, foi organizada uma marcha indígena pacífica com a participação de diversas etnias indígenas brasileiras, que culminou no ataque brutal da Tropa de Choque Militar da Bahia.

O gesto heróico do Índio Gildo Terena, que pisoteado pela tropa militar com fratura do maxilar, sensibilizou o país e o mundo quando se ajoelhou e deitou diante do pelotão de choque rogando por misericórdia e não violência.

Como se o passado se reproduzisse no presente, o Índio Terena murmura a mesma dor dos seus ancestrais: “Eu chorei, não aguentei ver em mim um índio pisado no começo de uma nova era de 500 anos”.

Fotografia e texto: livro "Bahia Saga e Misticismo" , integra acervo Centro Português de Fotografia.