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TRIPALIUM

CARVOEIROS DO MS

Entre 1970 e 1992, apenas no Estado do Mato Grosso do Sul, mais de um bilhão de árvores foram devastadas para atender a indústria do carvão colocando o Estado na categoria do segundo maior produtor de Carvão Vegetal do país, estatuto atingido a custa da exploração do trabalho humano e de inconsequente consumo dos recursos naturais.

TRIPALIUM

Carvoeiros do MS - Brasil

TRIPALIUM é o título da nova coluna deste blog que regularmente publicará imagens reveladoras da relação do HOMEM com o TRABALHO.

Palavra latina, TRIPALIUM é uma ferramenta construída com três paus pontiagudos, às vezes com pontas de ferro, usada pelos agricultores para bater, rasgar e esfiapar o trigo e as espigas de milho. Os romanos o utilizavam como um instrumento de tortura, seja para subjugar os animais, seja para forçar os escravos a trabalharem com mais empenho e produtividade.

Para muitos de nós a escravidão, o holocausto e outros fatos que envergonharam a história humana representam cicatrizes abertas sem nenhuma hipótese de cura. E o mais dramático é que, em muitos setores e países, as relações de trabalho continuam revelando traços de situações humilhantes e degradantes que merecem o nosso incondicional repúdio e ação.

Entre tantas possibilidades de título para essa coluna me pergunto o motivo pelo qual elegi um termo de conotação tão dramático, sobretudo porque nas fotografias procuro retratar os personagens sob uma ótica humana e digna. Seria então um subterfúgio para a remição de tal brutalidade humana? Ou seria uma homenagem aos negros cujo suores e lágrimas lavaram e fertilizaram as nossas terras?

O trabalho ocupa papel central nos campos da filosofia, sociologia e economia, que o considera como fonte da criação da riqueza social. Vários autores já debruçaram sobre essa temática publicando relevantes obras. Na fotografia, em especial, o assunto sensibilizou o olhar de muitos fotógrafos, entre eles o americano Lewis Hine e o brasileiro Sebastião Salgado, trabalhos de força e envergadura que me inspiraram a produzir, ao longo dos anos, esta série que a partir de agora compartilharei com todos. Seja bem vindos e Mãos à Obra!

LEMBRO-ME

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LEMBRO-ME que em junho de 2002, durante as festas comemorativas de São João, com o objetivo de documentar a doutrina do Santo Daime me lançava em uma aventura, entre aviões, carros e voadeiras (lancha), para aterrar numa nova dimensão encravada no sul da Amazônia.

O destino final era o Céu do Mapiá, uma pequena comunidade situada há 30 Km do Rio Purus, fundada em 1983 pelo Padrinho Sebastião. Na época da minha visita o povoado abrigava por volta de 500 habitantes, a maioria devotos do Santo Daime, que tem por prática a consagração da ayahuasca, uma bebida enteógena utilizada pelos indígenas para os seus rituais xamânicos.

Entre tantos registros realizados sobre a doutrina destaco o feitio, o termo designado para a produção da bebida, também conhecida por daime. Pela floresta andei e fotografei a coleta do jagube (cipó) e a sua maceração, atividades exclusivas dos homens, assim como o trabalho das mulheres na seleção das folhas (Chacrona), substância essencial para a produção do daime, à ela se atribui o poder da luz.

O ponto alto do feitio ocorreu quando essas duas poderosas substâncias de origem vegetal foram misturadas e fervidas em grandes caldeirões, um processo que dura dias até o seu engarrafamento artesanal. Foi através de um dos líderes do daime, Alex Polaris, ex-preso político e militante contra a ditatura, que tive a oportunidade e o livre acesso para documentar essa série ao qual intitulo, o Evangelho da Floresta.

Lembro-me que foi no Céu do Mapiá, no dia 30 de junho daquele ano, enquanto o Brasil celebrava a conquista do penta, que recebi a notícia de que o médium Chico Xavier havia desencarnado. Eu como tantos outros brasileiros ficamos duplamente sensibilizados. Na minha bolsa de fotografia ainda guardava os filmes não revelados recentemente produzidos sobre aquele Ser Iluminado, precisamente 15 dias antes daquela data.

LEMBRO-ME

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LEMBRO-ME muito bem deste fato, como poderia esquece-lo? O atual momento brasileiro, tomado por manifestações populares, remete-me a abril de 2000, onde no extremo sul da Bahia, na ocasião das comemorações dos 500 anos de “descobrimento” do Brasil, foi organizada uma marcha indígena pacífica com a participação de diversas etnias indígenas brasileiras, que culminou no ataque brutal da Tropa de Choque Militar da Bahia.

O gesto heróico do Índio Gildo Terena, que pisoteado pela tropa militar com fratura do maxilar, sensibilizou o país e o mundo quando se ajoelhou e deitou diante do pelotão de choque rogando por misericórdia e não violência.

Como se o passado se reproduzisse no presente, o Índio Terena murmura a mesma dor dos seus ancestrais: “Eu chorei, não aguentei ver em mim um índio pisado no começo de uma nova era de 500 anos”.

Fotografia e texto: livro "Bahia Saga e Misticismo" , integra acervo Centro Português de Fotografia.

LEMBRO-ME

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LEMBRO-ME apenas de alguns detalhes quando realizei essa fotografia. Selecionei-a para celebrar a sua recentemente conquistado do 1ª prêmio no III Black & White Award WPGA, 2013, na categoria retrato.

Em setembro de 1999 na companhia do amigo jornalista português Paulo Chitas andamos pelo interior da Bahia e juntos tivemos a oportunidade de permanecer alguns dias em um quilombo localizado às margens do rio Marimbu.

Passado mais de uma década, impossível não me pergunta sobre o atual paradeiro e destino deste garoto cuja infância foi curtida – ou sofrida – em um povoado do nordeste brasileiro. Mesmo sabendo que no Brasil prevalece as desigualdades e injustiças sociais, prefiro acreditar que hoje este menino é um homem realizado e digno da grandeza da raça dos seus ancestrais.

A exemplo da maioria das casa do povoado, este garoto vivia em uma modesta habitação com paredes de taipa, chão de terra batida e fogão à lenha. A bondade e paciência com que ele se submeteu à sessão fotográfica se revela na luz refletida do seu olhar.

Foi nesta pequena comunidade que tivemos a oportunidade de ouvir pela primeira vez os tambores do jarê (uma forma de candomblé), as oferendas do caruru aos sete meninos de São Cosme e Damião, a produção artesanal de tapioca, a fabricação do azeite de dendê retirado da polpa do fruto do dendezeiro (palmeira originária da costa ocidental africana). Ali também conheci o Sr. Manoel, com 73 anos, pai de 25 filhos, o homem responsável pelo povoamento do local....

Entre tantos sonhos e projetos pessoais, quero um dia ali retornar  para compartilhar com a comunidade esse envelhecer das imagens que ali capturei.

 

OLHARES

Um olhar sobre o Vale do Amanhecer, DF.  Movimento doutrinário e religioso fundado  pela Tia Neiva, uma motorista de caminhão com dom da clarividência. Conforme a sua biografia, na década de 60 desenvolveu a técnica do transporte consciente, fenômeno que a possibilitava se trasportar diariamente até o Tibete para receber as instruções iniciáticas de um mestre tibetano.

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LEMBRO-ME

LEMBRO-ME que nesta data de 2002, em Rio Branco, Estado do Acre, foi um momento especial porque pela primeira vez eu frequentava um congá (terreiro). No seu interior o fogo, as explosões e a fumaça tomavam conta do ambiente e me provocavam um certo estado de êxtase, uma sensação de mistério, descoberta e benção pela oportunidade de ali estar documentado os trabalhos de curas praticado pelos membros desta doutrina conhecida por Barquinha. Para mim a bebida Ayahusaca não era totalmente desconhecida, uma vez no Céu do Mapiá  (sul da Amazônia) eu a provará pela primeira vez, durante os 15 dias em que la estive para documentar a doutrina do Santo Daime.

Foi na Barquinha, sob a atmosfera dos hinários, o poder da sagrada bebida e a responsável orientação do “presidente da casa” , Francisco, que vivenciei uma experiência transformadora em minha vida. Não se trata de fazer apologia à bebida, a intenção é revelar uma experiência pessoal da qual jamais esquecerei.

Por ali estive alguns dias fotografando vários rituais praticados pelos membros da Barquinha. Entre algumas imagens produzidas neste dia em particular gosto desta pela sua simplicidade, pelo mistério intrísico, pela par de velas ao fundo e em especial a forma de coração desenhada pela fumaça.

 

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