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LEMBRO ME

Revelo um especial interesse por esta fotografia, talvez despertado pelo contraste de liberdade com que os pássaros voam em um cenário ocupado por reféns sem as mesmas chances e merecimentos das aves. Sentimentos como este, a dignidade com que esta mulher realiza o seu trabalho e a harmonia com que os elementos dialogam na construção da imagem me motivaram a escrever essas recordações que guardo há 15 anos.

 

Lembro me que foi casual a chegada ao local, tratava se da minha primeira visita a Calcutá, capital indiana do estado west bengal. Durante esta jornada a busca por temáticas nas periferias e parques se tornou uma estratégia que desenvolvi e da qual muito me servi para sobreviver às adversidades e desafios das megalópoles.

O bisbilhoteiro e imprescindível Mr Google ainda não havia se apresentado à nós, tampouco às máquinas digitais. Foi desdobrando o mapa da capital bengal que o meu olhar se lançou em direção ao norte e sem muito hesitar defini para onde iria me aventurar, sem a ideia precisa do que encontraria. Com o auxílio de um taxi alcancei o destino descobrindo uma fábrica de tijolos situada à margem do rio Hooglhy, um importante tributário do Ganges onde homens, mulheres e crianças trabalhavam. Acompanhado pelos deuses hindus e a sorte, lembro-me que naquele dia vi as embarcações atracadas com grande quantidade de barro, a matéria prima fundamental para o abastecimento das fábricas de tijolos. Homens descarregavam a argila escura que mais tarde se transformaria em tijolo, casas, edifícios e etc.

 

Não muito distante daquele largo e místico fio de água que inexoravelmente corria para mar, mulheres e crianças descalças  - sim, crianças, e por sinal algumas bastante novas - carregavam pilhas de tijolos como se fossem burros de carga (com todo respeito às mulheres e a este nobre animal tão dócil e serviçal).

 

Sobre as cabeças o número de tijolos variava, os adultos carregavam duas pilhas com 8 ou 10 unidades; já os menores, dependendo da idade, uma única pilha com dois ou quatro. O miserável e essencial salário estava condicionado à produção individual ou familiar.

 

Às crianças outras tarefas também lhes eram destinadas, além da carga da argila e dos tijolos. Com as suas pequeninas mãos e braços fortes amassavam o barro  para depois, com o auxílio de uma forma de madeira, moldar os tijolos que posteriormente seriam transportados até aos fornos para a queima.

 

Este exaustivo e sincronizado vai e vem dos homens,  mulheres e crianças me lembrava uma coreografia a céu aberto, cujo o único espectador era eu, o fotógrafo; motivada por uma única razão, a garantia da sobrevivência daquelas famílias exploradas e submissas às condições desumanas.

 

Passado tantos anos e com a globalização do planeta me pergunto se ainda espetáculos desta natureza se apresentam às margens do majestoso Hooglhy. Sinceramente, receio que a resposta seja sim.

 

LEMBRO-ME

Lembro-me que a pequena localidade de Puri, situada há 60 Km da capital do Estado de Orissa – Índia - foi em 1999 um refúgio Zen onde pude psicologicamente me refazer do stress vivenciado em Calcutá, considerada a 3ª cidade mais populosa do país, com uma população de quase 15 milhões de habitantes.

Recém chegado na praia de Puri já desfrutava da sensação de ter aterrado no paraíso. Ali, o caótico trânsito e as ensurdecedoras buzinas da capital de West Bengal rapidamente foram substituídos pelo singelo toque das campainhas dos rickshaws e das bicicletas. A densa massa humana de Calcutá que quase me levou a loucura havia se evaporado, em Puri a minha alma encontrou o silêncio que tanto precisava e ali me redescobri.

Para os hindus este local é sagrado e de grande importância na sua tradição graças ao Templo de Jagannath (Lord of the Universe), construído no local durante o século XI. Eu como admirador de Paramahansa Yogananda, o guru indiano autor do best seller Autobiografia de um Yogue, aquele local para mim, mesmo não sendo hindu, também vibrava de uma forma especial. Em 1903, Sri Yukteswar, o Guru de Yogananda, fundava em Puri um ashram e ali, anos mais tarde, em 9 de março de 1936 ele deixava a terra.

Durante os dias que ali estive não pude visitar o templo de Jagannath,  restritos apenas para os hindus. Entretanto nesta praia, sozinho, através do exercício de fotografar pratiquei horas de meditação e mergulho interno. Foi ali que me recuperei de todo stress, revigorado estava pronto para novamente enfrentar a crazy Calcutá por onde fiquei vários dias fotografando.