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FORA DE FOCO - OLHARES

No início da década de 90 por um curto período estive radicado na capital francesa. Um dia, como um outro qualquer, caminhando pelos belos recantos daquela fascinante cidade, fui tomado por uma certa revolta de puro tom nacionalista ao ler uma reportagem publicada na GEO francesa sobre o meu país.  

Em página dupla se abria uma longa matéria estampando a seguinte realidade: BRASIL UMA SOCIEDADE INFLUENCIADA PELA TELEVISÃO. Visionária matéria publicada há mais de vinte anos, provavelmente na época ainda nem parabólica existia.... 

Este retrato foi realizado recentemente em um assentamento no interior do Estado do Rio Grande do Norte. Outros poderão ser vistos na Sessão Portrait deste site, em http://www.buainain.com/retratos1/

OLHARES - VARANASI

PURISTA – Ser ou Não Ser

 

Ao contrário de alguns puristas, o reenquadramento (crop) de uma imagem é para mim sempre um exercício de prazer que adentra não somente o campo da criatividade, mas em especial as possibilidades de um resgate imagético.

Durante o ato de fotografar são inúmeros os motivos capazes de condenar uma fotografia ao fracasso, entre eles a má composição, a luz inadequada,  o excesso de elementos e etc.

No campo das artes plásticas, uma tela sobre o cavalete pode permanece dias, meses e até anos a espera da inspiração e intervenção do seu criador, ficando ali pacientemente sujeita aos rabiscos, pinceladas, sobreposições e remoções das camadas de tintas.

 Na literatura escritores e poetas burilam as palavras como bem lhes apetecem. “Minhoca arejam a terra, poetas a linguagem”, assim nos lembra  Manoel de Barros.

 Ora, com toda razão o leitor e esta curiosa senhora, sentada ao meu lado em uma das poltronas do vôo Avianca - 6309, destino  Natal – Brasília, devem estar perguntado qual seria a relação dessas palavras com esta fotografia? Meus caros amigos e senhora que me espreita, têm tudo a ver! Esta imagem foi cropada, sofreu um severo reenquadramento e na qualidade de autor e responsável confesso que o resultado alcançado graças a essa “mutilação” me proporciona um certo estado de satisfação, confirmando a tese da libertária possibilidade de expressão, lamentavelmente desconhecida pelos puristas que tanto negam os cortes e recortes da vida e da criação.

LEMBRO-ME

Lembro-me que a pequena localidade de Puri, situada há 60 Km da capital do Estado de Orissa – Índia - foi em 1999 um refúgio Zen onde pude psicologicamente me refazer do stress vivenciado em Calcutá, considerada a 3ª cidade mais populosa do país, com uma população de quase 15 milhões de habitantes.

Recém chegado na praia de Puri já desfrutava da sensação de ter aterrado no paraíso. Ali, o caótico trânsito e as ensurdecedoras buzinas da capital de West Bengal rapidamente foram substituídos pelo singelo toque das campainhas dos rickshaws e das bicicletas. A densa massa humana de Calcutá que quase me levou a loucura havia se evaporado, em Puri a minha alma encontrou o silêncio que tanto precisava e ali me redescobri.

Para os hindus este local é sagrado e de grande importância na sua tradição graças ao Templo de Jagannath (Lord of the Universe), construído no local durante o século XI. Eu como admirador de Paramahansa Yogananda, o guru indiano autor do best seller Autobiografia de um Yogue, aquele local para mim, mesmo não sendo hindu, também vibrava de uma forma especial. Em 1903, Sri Yukteswar, o Guru de Yogananda, fundava em Puri um ashram e ali, anos mais tarde, em 9 de março de 1936 ele deixava a terra.

Durante os dias que ali estive não pude visitar o templo de Jagannath,  restritos apenas para os hindus. Entretanto nesta praia, sozinho, através do exercício de fotografar pratiquei horas de meditação e mergulho interno. Foi ali que me recuperei de todo stress, revigorado estava pronto para novamente enfrentar a crazy Calcutá por onde fiquei vários dias fotografando. 

LEMBRO-ME

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LEMBRO-ME apenas de alguns detalhes quando realizei essa fotografia. Selecionei-a para celebrar a sua recentemente conquistado do 1ª prêmio no III Black & White Award WPGA, 2013, na categoria retrato.

Em setembro de 1999 na companhia do amigo jornalista português Paulo Chitas andamos pelo interior da Bahia e juntos tivemos a oportunidade de permanecer alguns dias em um quilombo localizado às margens do rio Marimbu.

Passado mais de uma década, impossível não me pergunta sobre o atual paradeiro e destino deste garoto cuja infância foi curtida – ou sofrida – em um povoado do nordeste brasileiro. Mesmo sabendo que no Brasil prevalece as desigualdades e injustiças sociais, prefiro acreditar que hoje este menino é um homem realizado e digno da grandeza da raça dos seus ancestrais.

A exemplo da maioria das casa do povoado, este garoto vivia em uma modesta habitação com paredes de taipa, chão de terra batida e fogão à lenha. A bondade e paciência com que ele se submeteu à sessão fotográfica se revela na luz refletida do seu olhar.

Foi nesta pequena comunidade que tivemos a oportunidade de ouvir pela primeira vez os tambores do jarê (uma forma de candomblé), as oferendas do caruru aos sete meninos de São Cosme e Damião, a produção artesanal de tapioca, a fabricação do azeite de dendê retirado da polpa do fruto do dendezeiro (palmeira originária da costa ocidental africana). Ali também conheci o Sr. Manoel, com 73 anos, pai de 25 filhos, o homem responsável pelo povoamento do local....

Entre tantos sonhos e projetos pessoais, quero um dia ali retornar  para compartilhar com a comunidade esse envelhecer das imagens que ali capturei.