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FORA DE FOCO - OLHARES

No início da década de 90 por um curto período estive radicado na capital francesa. Um dia, como um outro qualquer, caminhando pelos belos recantos daquela fascinante cidade, fui tomado por uma certa revolta de puro tom nacionalista ao ler uma reportagem publicada na GEO francesa sobre o meu país.  

Em página dupla se abria uma longa matéria estampando a seguinte realidade: BRASIL UMA SOCIEDADE INFLUENCIADA PELA TELEVISÃO. Visionária matéria publicada há mais de vinte anos, provavelmente na época ainda nem parabólica existia.... 

Este retrato foi realizado recentemente em um assentamento no interior do Estado do Rio Grande do Norte. Outros poderão ser vistos na Sessão Portrait deste site, em http://www.buainain.com/retratos1/

Fora de Foco - O Oneroso Preço da Humilhação

O Oneroso Preço da Humilhação

No mundo as manchetes dos principais jornais destacam os resultados dos jogos do Brasil frente a Alemanha e Holanda como “a maior humilhação sem precedente na história do mundial”. Que vergonha! Um preço demasiado caro para uma população carente em educação, hospital, segurança e valores morais. Naturalmente que a conta desta leviana, insana e oportunista ideia de realizar o mundial no Brasil ainda não foi liquidada, o débito moral em pouco tempo será esquecido, porém o financeiro implacavelmente  o sentiremos durante os próximos anos e décadas.  

São infindáveis os caracteres sobre este assunto que nos causa uma certa ressaca e revolta. Porém como brasileiro e fotógrafo me limito à publicação dessas simbólicas fotografias, realizada no Estado da Bahia, acompanhada de um texto cujo autor desconheço.

Isso representa mais que um simples jogo! Representa a vitória da competência sobre a malandragem! Serve de exemplo para gerações de crianças que saberão que pra vencer na vida tem-se que ralar, treinar, estudar! Acabar com essa história de jeitinho malandro do brasileiro, que ganha jogo com seu gingado, ganha dinheiro sem ser suado, vira presidente sem ter estudado! O grande legado desta copa é o exemplo para gerações do futuro! Que um país é feito por uma população honesta, trabalhadora, e não por uma população transformada em parasita por um governo que nos ensina a receber o alimento na boca e não a lutar para obtê-lo!  A Alemanha ganha com maestria e merecimento! Que nos sirva de lição! Pátria amada Brasil tem que ser amada todos os dias, no nosso trabalho, no nosso estudo, na nossa honestidade! Amar a pátria em um jogo de futebol e no outro dia roubar o país num ato de corrupção, seja ele qual for, furando uma fila, sonegando impostos, matando, roubando! Que amor à pátria é este! Já chega!!! O Brasil cansou de ser traído por seu próprio povo! Que sirva de lição para que nos agigantemos para construirmos um país melhor! Educar nossos filhos pra uma geração de vergonha! Uma verdadeira nação que se orgulha de seu povo, e não só de seu futebol!!”

OLHARES - VARANASI

PURISTA – Ser ou Não Ser

 

Ao contrário de alguns puristas, o reenquadramento (crop) de uma imagem é para mim sempre um exercício de prazer que adentra não somente o campo da criatividade, mas em especial as possibilidades de um resgate imagético.

Durante o ato de fotografar são inúmeros os motivos capazes de condenar uma fotografia ao fracasso, entre eles a má composição, a luz inadequada,  o excesso de elementos e etc.

No campo das artes plásticas, uma tela sobre o cavalete pode permanece dias, meses e até anos a espera da inspiração e intervenção do seu criador, ficando ali pacientemente sujeita aos rabiscos, pinceladas, sobreposições e remoções das camadas de tintas.

 Na literatura escritores e poetas burilam as palavras como bem lhes apetecem. “Minhoca arejam a terra, poetas a linguagem”, assim nos lembra  Manoel de Barros.

 Ora, com toda razão o leitor e esta curiosa senhora, sentada ao meu lado em uma das poltronas do vôo Avianca - 6309, destino  Natal – Brasília, devem estar perguntado qual seria a relação dessas palavras com esta fotografia? Meus caros amigos e senhora que me espreita, têm tudo a ver! Esta imagem foi cropada, sofreu um severo reenquadramento e na qualidade de autor e responsável confesso que o resultado alcançado graças a essa “mutilação” me proporciona um certo estado de satisfação, confirmando a tese da libertária possibilidade de expressão, lamentavelmente desconhecida pelos puristas que tanto negam os cortes e recortes da vida e da criação.

TRIPALIUM

Carvoeiros do MS - Brasil

TRIPALIUM é o título da nova coluna deste blog que regularmente publicará imagens reveladoras da relação do HOMEM com o TRABALHO.

Palavra latina, TRIPALIUM é uma ferramenta construída com três paus pontiagudos, às vezes com pontas de ferro, usada pelos agricultores para bater, rasgar e esfiapar o trigo e as espigas de milho. Os romanos o utilizavam como um instrumento de tortura, seja para subjugar os animais, seja para forçar os escravos a trabalharem com mais empenho e produtividade.

Para muitos de nós a escravidão, o holocausto e outros fatos que envergonharam a história humana representam cicatrizes abertas sem nenhuma hipótese de cura. E o mais dramático é que, em muitos setores e países, as relações de trabalho continuam revelando traços de situações humilhantes e degradantes que merecem o nosso incondicional repúdio e ação.

Entre tantas possibilidades de título para essa coluna me pergunto o motivo pelo qual elegi um termo de conotação tão dramático, sobretudo porque nas fotografias procuro retratar os personagens sob uma ótica humana e digna. Seria então um subterfúgio para a remição de tal brutalidade humana? Ou seria uma homenagem aos negros cujo suores e lágrimas lavaram e fertilizaram as nossas terras?

O trabalho ocupa papel central nos campos da filosofia, sociologia e economia, que o considera como fonte da criação da riqueza social. Vários autores já debruçaram sobre essa temática publicando relevantes obras. Na fotografia, em especial, o assunto sensibilizou o olhar de muitos fotógrafos, entre eles o americano Lewis Hine e o brasileiro Sebastião Salgado, trabalhos de força e envergadura que me inspiraram a produzir, ao longo dos anos, esta série que a partir de agora compartilharei com todos. Seja bem vindos e Mãos à Obra!

LEMBRO-ME - ÍNDIA

Lembro-me, claro que sim! Difícil esquecer as provações que a cidade de Calcutá submete a qualquer visitante ocidental.

Como poderia me esquecer do vai e vem da densa massa humana que ocupa a 3ª cidade mais populosa da Índia? Das estrondosas buzinas capazes de moer o cérebro de um sujeito normal, imagina de um cuja intolerância ao barulho é quase zero?

Lembro-me que, como estratégia de sobrevivência, para suportar a poluição e ao intenso caos desta cidade busquei refúgios nas margens do rio Hooghly, nas periferias da cidade e nos parques urbanos. Confesso que a Calcutá que fotografei não representa ao estereótipo da Kolkata que nos é apresentado pelos livros, filmes e fotografias.

Foi nesta cidade que vivi as mais belas e desafiadoras experiências, onde a pobreza se mescla com o amor e vice versa. Não é por acaso que a missionária de origem albanesa, Madre Teresa, ali encontrou um campo fértil para semear o mais belo projeto de caridade e amor.

Acreditem, em Calcutá o impossível é possível! 

Um dos parques urbanos da cidade de Calcutá.

LEMBRO-ME

Uma entre tantas vantagens de estar “VIVO” é poder fotografar no dia dos “MORTOS”. Lembro-me desta data, um feriado de 2 de novembro de 2012 que me motivou visitar pela primeira vez o cemitério do Alecrim, em Natal, RN. 

Para muitos eles representam um local mal assobrado, para outros um santuário onde entes queridos descansam. Os cemitérios me fascinam como tema fotográfico, em Paris com frequência me refugiava no renomado Père Lachaise para meditar e através da terapia fotográfica amenizar a minha solidão. Sempre que posso me desvio e me perco em direção aos cemitérios...

Na manhã em que realizei essa fotografia acordei cedo, milagrosamente com facilidade encontrei estacionamento no disputado Bairro do Alecrim. Quando ali cheguei o cemitério já estava ornamentado com cores e pessoas. Por ser um local também frequentado por marginais eu estava alerta sobre possibilidades de assaltos. Em poucos minutos vivenciei uma cena triste ao escutar o lamento de uma senhora, idosa e indefesa, anunciando ter sido roubada. Logo fui tomado por uma mescla de compaixão, ódio e impotência.

Por horas explorei e fotografei o interior do cemitério, entretanto foi no seu exterior, próximo à porta de entrada, que me deparei com as barracas e os vendedores de flores. O colorido era espetacular, mas quando fotografo em preto e branco pratico o exercício da abstração das cores. Os vendedores, cientes da minha presença, amigavelmente me convidavam para fotografar as suas barracas com os respectivos arranjos. Acolhia com simpatia tal cordialidade e tentava lhes explicar que o meu foco era as coras penduradas. Pacientemente (alias, essa é uma virtude imprescindível aos fotógrafos) ali fiquei algum tempo a espera de um transeunte para então poder materializar este momento decisivo.

 

LEMBRO-ME

Lembro-me que a pequena localidade de Puri, situada há 60 Km da capital do Estado de Orissa – Índia - foi em 1999 um refúgio Zen onde pude psicologicamente me refazer do stress vivenciado em Calcutá, considerada a 3ª cidade mais populosa do país, com uma população de quase 15 milhões de habitantes.

Recém chegado na praia de Puri já desfrutava da sensação de ter aterrado no paraíso. Ali, o caótico trânsito e as ensurdecedoras buzinas da capital de West Bengal rapidamente foram substituídos pelo singelo toque das campainhas dos rickshaws e das bicicletas. A densa massa humana de Calcutá que quase me levou a loucura havia se evaporado, em Puri a minha alma encontrou o silêncio que tanto precisava e ali me redescobri.

Para os hindus este local é sagrado e de grande importância na sua tradição graças ao Templo de Jagannath (Lord of the Universe), construído no local durante o século XI. Eu como admirador de Paramahansa Yogananda, o guru indiano autor do best seller Autobiografia de um Yogue, aquele local para mim, mesmo não sendo hindu, também vibrava de uma forma especial. Em 1903, Sri Yukteswar, o Guru de Yogananda, fundava em Puri um ashram e ali, anos mais tarde, em 9 de março de 1936 ele deixava a terra.

Durante os dias que ali estive não pude visitar o templo de Jagannath,  restritos apenas para os hindus. Entretanto nesta praia, sozinho, através do exercício de fotografar pratiquei horas de meditação e mergulho interno. Foi ali que me recuperei de todo stress, revigorado estava pronto para novamente enfrentar a crazy Calcutá por onde fiquei vários dias fotografando. 

LEMBRO-ME

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LEMBRO-ME que em junho de 2002, durante as festas comemorativas de São João, com o objetivo de documentar a doutrina do Santo Daime me lançava em uma aventura, entre aviões, carros e voadeiras (lancha), para aterrar numa nova dimensão encravada no sul da Amazônia.

O destino final era o Céu do Mapiá, uma pequena comunidade situada há 30 Km do Rio Purus, fundada em 1983 pelo Padrinho Sebastião. Na época da minha visita o povoado abrigava por volta de 500 habitantes, a maioria devotos do Santo Daime, que tem por prática a consagração da ayahuasca, uma bebida enteógena utilizada pelos indígenas para os seus rituais xamânicos.

Entre tantos registros realizados sobre a doutrina destaco o feitio, o termo designado para a produção da bebida, também conhecida por daime. Pela floresta andei e fotografei a coleta do jagube (cipó) e a sua maceração, atividades exclusivas dos homens, assim como o trabalho das mulheres na seleção das folhas (Chacrona), substância essencial para a produção do daime, à ela se atribui o poder da luz.

O ponto alto do feitio ocorreu quando essas duas poderosas substâncias de origem vegetal foram misturadas e fervidas em grandes caldeirões, um processo que dura dias até o seu engarrafamento artesanal. Foi através de um dos líderes do daime, Alex Polaris, ex-preso político e militante contra a ditatura, que tive a oportunidade e o livre acesso para documentar essa série ao qual intitulo, o Evangelho da Floresta.

Lembro-me que foi no Céu do Mapiá, no dia 30 de junho daquele ano, enquanto o Brasil celebrava a conquista do penta, que recebi a notícia de que o médium Chico Xavier havia desencarnado. Eu como tantos outros brasileiros ficamos duplamente sensibilizados. Na minha bolsa de fotografia ainda guardava os filmes não revelados recentemente produzidos sobre aquele Ser Iluminado, precisamente 15 dias antes daquela data.

LEMBRO-ME

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LEMBRO-ME muito bem deste fato, como poderia esquece-lo? O atual momento brasileiro, tomado por manifestações populares, remete-me a abril de 2000, onde no extremo sul da Bahia, na ocasião das comemorações dos 500 anos de “descobrimento” do Brasil, foi organizada uma marcha indígena pacífica com a participação de diversas etnias indígenas brasileiras, que culminou no ataque brutal da Tropa de Choque Militar da Bahia.

O gesto heróico do Índio Gildo Terena, que pisoteado pela tropa militar com fratura do maxilar, sensibilizou o país e o mundo quando se ajoelhou e deitou diante do pelotão de choque rogando por misericórdia e não violência.

Como se o passado se reproduzisse no presente, o Índio Terena murmura a mesma dor dos seus ancestrais: “Eu chorei, não aguentei ver em mim um índio pisado no começo de uma nova era de 500 anos”.

Fotografia e texto: livro "Bahia Saga e Misticismo" , integra acervo Centro Português de Fotografia.