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FORA DE FOCO - "DEU JUMENTO" no POYLATAM 2015 - 1º LUGAR


ERA UMA VEZ... contemplado com duas premiações no maior concurso ibero-americano de fotografia. 

1º Lugar - Categoria Cotidiano Individual.

1º LUGAR - CATEGORIA COTIDIANO INDIVIDUAL 

 

Trata-se do  POYLATAM que contou com a participação de 31.100 imagens e 168 multimídias inscritas por candidatos de quase todos os países ibero-americanos.

Premiada com o Primeiro Lugar, na categoria Cotidiano Individual, o destaque foi para a fotografia acima realizada no Estado do Rio Grande do Norte (RN) que flaga um homem capturando um jumento “selvagem” sobre as Dunas. Tenho constatado junto ao público que esta imagem desperta uma certa curiosidade sobre a cena. A título de esclarecimento ela foi realizada no contexto de um programa que objetiva a remoção dos animais soltos nas estradas e dunas do Estado do RN, um projeto incipiente que merece mais atenção, vigilância e maior interesse do governo em busca de uma solução mais concreta para o assunto uma vez que animais e humanos tem sido vítimas de acidente fatais. 

 Já na categoria Retrato o Segundo Lugar foi atribuído para a imagem de um menino ao lado de um jumento, captada no interior do RN durante uma corrida de Jegues. 

 

2ª Lugar - Categoria Retrato

2º LUGAR - CATEGORIA RETRATO INDIVIDUAL 

 

Para aqueles que ainda não conhecem, ERA UMA VEZ... é um projeto de documentação fotográfica desenvolvido no âmbito do prêmio MARC FERREZ de FOTOGRAFIA 2013 cujo enfoque foi resgatar a importância cultural, social e econômica que este animal representou para o nordeste brasileiro. Em nome desse nobre e humilde animal me sinto verdadeiramente honrado com tal conquista, ressaltando que o maior mérito não atribuo ao fotógrafo e sim aos jumentos, aos jegues, que merecem maior atenção uma vez que esta espécie tem sido vítima de maus tratos, abandono e ameaça de extinção.

A versão digital do livro ERA UMA... está disponível para download no site www.buainain.com, aba download. 

 

Uma das imagens submetidas ao concurso.

A edição do POYLATAM deste ano aconteceu no México e foi composta por uma comissão julgadora internacional, entre alguns nomes:

Mike Davis (USA), diretor para Fotografia Documental da Fundação Alexia Tsairis e ex editor da Revista National Geographic.

Magdalena Herrera (Cuba/Francia), diretora de fotografia da Revista Geo francesa e ex-diretora de arte e de fotografia da Revista National Geographic francesa.

 Gary Knight (Inglaterra) fundador y diretor do Programa de Estudos Narrativos e Documental no Instituto de Liderazgo Global de la Universidad de Tufts. Co-fundador da Agência VII, Festival de Angkor e por diversas vezes presidente do corpo de jurados do concurso World Press Photo.

 Tomás Munita (Chile). Fotógrafo documental independente colabortador do New York Times, GEO, Stern, Times e National Geographic. Vencedor de vários prêmios internacionais, entre eles  três vezes o World Press Photo, o POYLATAM e o Oskar Barnack.

 Yolanda Andrade (México) – Estudou fotografia em Rochester, N.Y. Bolsista da Fundação John Simon Guggenheim Memorial Foundation para desenvolver o seu projeto fotográfico sobre a Cidade do México. Autora de vários livros, a sua obra se encontra em acervo de vários museus e instituições importantes do mundo.

 Tiago Santana (Brasil). Um dos fotógrafos mais respeitados do Brasil com vários prêmios e livros publicados. Ao lado de Sebastião Salgado foi o segundo fotógrafo brasileiro a publicar na renomada coleção francesa, Photo Poche. Fundador da Editora Tempo D’Imagem, especializada em fotografia. 

Uma das imagens submetidas ao concurso, Categoria Cotidiano Individual. 

Uma das imagens submetidas ao concurso, Categoria Cotidiano Individual. 


Uma das imagens submetidas ao concurso, Categoria Cotidiano Individual. 

Uma das imagens submetidas ao concurso, Categoria Cotidiano Individual. 

FORA DE FOCO - ERA UMA VEZ...

Lançamento do livro e abertura da exposição - ERA UMA VEZ...


No próximo dia 11, quinta feira, na Pinacoteca do Estado do Rio Grande do Norte, abertura da exposição com o lançamento do livro ERA UMA VEZ... Contemplado com o XIII PRÊMIO MARC FERREZ DE FOTOGRAFIA, este projeto presta um tributo ao Jumentos do nordeste brasileiro, o animal que mais serviu ao homem e que hoje está abandonado e condenado ao ostracismo. 

Na sequência o prefácio do livro com uma seleção de algumas das imagens que integram o projeto ERA UMA VEZ...


ERA UMA VEZ...

Em uma das minhas andanças pelo litoral do Rio Grande do Norte, constatei o quanto o patrimônio natural e humano brasileiro está deteriorado. Desse modo, boa parte da paisagem litorânea – que sempre foi referência de beleza e encantamento daquele Estado – e dos manguezais está tomada por uma arquitetura descontextualizada, pelo desmatamento, pela erosão e poluição hídrica. Não há dúvida de que esse desolador quadro é consequência de uma ocupação desordenada da nossa “civilização” e da ausência de uma política em prol da biodiversidade.

Por sua vez, o hospitaleiro nordestino de outrora também já não é mais o mesmo. A simpatia e a hospitalidade que modelavam a natureza desse povo estão engessadas, seja pela natural desconfiança face à violência que assola todo o país, seja pela invasão dos turistas selvagens que se julgam espertos com a prática de sempre tirar vantagens pessoais o que, por sinal, parece estar se tornando um padrão da sociedade brasileira. 

Tomado por um sentimento de impotência, cheguei à triste conclusão de que Era uma vez o nosso litoral! Era uma vez o nosso povo! Era uma vez a esperança de um Brasil gigante, civilizado e exuberante! Assim, à medida que me aprofundava neste trabalho, conversava com as pessoas e documentava as realidades do sertão e litoral, fui compreendendo que o abandono dos jumentos simbolizava o descarte de uma cultura e valores que não precisariam ser desprezados em nome do desenvolvimento. Esse entendimento me levou também a perceber que Era uma vez o jumento, o jegue, o jerico, o burro, o roxinho... Era uma vez esse dócil, humilde e serviçal animal, escolhido por Jesus e louvado pelo Padre Vieira, cantado por Luiz Gonzaga e cordelistas, admirado por Victor Hugo, Dom Pedro e Juan Ramón Jiménez. Era uma vez o protagonista da fabulosa obra literária Platero y Yo, merecedora do Prêmio Nobel de Literatura do ano de 1956. Era uma vez o animal que durante séculos foi responsável pela construção dos açudes e por tantos outros serviços. 

Nesse cenário, é sombria a sina dessa espécie submetida até mesmo a iniciar jovens nas suas primeiras experiências sexuais! Quantos dos nossos políticos nordestinos aposentados, ou que ainda hoje ocupam as câmaras, não passaram por essa experiência no sertão, em suas fazendas, que serviram como feudo e reserva de votos de cabresto? 

Era uma vez....” é um registro sobre um personagem que exerceu papel fundamental para o desenvolvimento do nordeste brasileiro, um resgate fotográfico que nos faz recordar a sua importância social, econômica e cultural. “Era uma vez...” conta a história de um animal que hoje está condenado ao ostracismo ou ao abate nos frigoríficos da China e do Brasil. 

Como ternamente o sacralizou o Rei do Baião, “Quer queira, quer não, o JUMENTO é nosso irmão!”           

Marcelo Buainain, 2014


 

 

 

 

 
 

FORA DE FOCO

"DEU JUMENTO" no Prêmio MARC FERREZ 2013 

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Como fotógrafo documentarista, radicado há mais de uma década no nordeste brasileiro, tenho coincidido meu olhar com temas regionais que expressam as condições de vida, o povo e a cultura da região. Ao ler o artigo do francês Gilles Lapouge, publicado no Estadão em junho de 2012, um verdadeiro desagravo à figura do jumento, mergulhei na história desse animal, que remonta, literalmente, aos tempos bíblicos – o jumento vai do Velho ao Novo Testamento em 133 citações.

O jumento também teve a honra de servir de montaria para Cristo quando Ele entrou em Jerusalém, antes da Paixão”, conta Lapouge. “Todo jumento tem uma cruz nas costas, não tem? foi ali que o menino santo fez o pipizinho! por isso ele é chamado de sagrado”, explica Luiz Gonzaga em um divertido forró.

 O fato é que, quanto mais eu me interessava pelo jumento – e mais percebia sua presença na história da humanidade, na literatura de todos os tempos, na música, nas tradições –, paradoxalmente, mais me dava conta, também, da sua ausência no mundo atual. 

 “A rarefação dos jumentos nos campos – no Nordeste brasileiro, no sul da França, mesmo na Palestina – sempre me pareceu uma desgraça. Fizemos tanta coisa juntos, eles e nós – as pirâmides, as minas, as rodas d’água, as catedrais, a agricultura...”, lembra Lapouge. 

 

O projeto  “NOSSO IRMÃO” tem, então, como objetivo principal, iluminar a saga desse herói-vítima brasileiro, de documentar, através do registro fotográfico, sua presença no Nordeste do Brasil, criando novas imagens e recuperando os vários papéis sociais desse animal único, singular na economia, na vida e no imaginário dos brasileiros.