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FORA DE FOCO - OLHARES

No início da década de 90 por um curto período estive radicado na capital francesa. Um dia, como um outro qualquer, caminhando pelos belos recantos daquela fascinante cidade, fui tomado por uma certa revolta de puro tom nacionalista ao ler uma reportagem publicada na GEO francesa sobre o meu país.  

Em página dupla se abria uma longa matéria estampando a seguinte realidade: BRASIL UMA SOCIEDADE INFLUENCIADA PELA TELEVISÃO. Visionária matéria publicada há mais de vinte anos, provavelmente na época ainda nem parabólica existia.... 

Este retrato foi realizado recentemente em um assentamento no interior do Estado do Rio Grande do Norte. Outros poderão ser vistos na Sessão Portrait deste site, em http://www.buainain.com/retratos1/

OLHARES - VARANASI

PURISTA – Ser ou Não Ser

 

Ao contrário de alguns puristas, o reenquadramento (crop) de uma imagem é para mim sempre um exercício de prazer que adentra não somente o campo da criatividade, mas em especial as possibilidades de um resgate imagético.

Durante o ato de fotografar são inúmeros os motivos capazes de condenar uma fotografia ao fracasso, entre eles a má composição, a luz inadequada,  o excesso de elementos e etc.

No campo das artes plásticas, uma tela sobre o cavalete pode permanece dias, meses e até anos a espera da inspiração e intervenção do seu criador, ficando ali pacientemente sujeita aos rabiscos, pinceladas, sobreposições e remoções das camadas de tintas.

 Na literatura escritores e poetas burilam as palavras como bem lhes apetecem. “Minhoca arejam a terra, poetas a linguagem”, assim nos lembra  Manoel de Barros.

 Ora, com toda razão o leitor e esta curiosa senhora, sentada ao meu lado em uma das poltronas do vôo Avianca - 6309, destino  Natal – Brasília, devem estar perguntado qual seria a relação dessas palavras com esta fotografia? Meus caros amigos e senhora que me espreita, têm tudo a ver! Esta imagem foi cropada, sofreu um severo reenquadramento e na qualidade de autor e responsável confesso que o resultado alcançado graças a essa “mutilação” me proporciona um certo estado de satisfação, confirmando a tese da libertária possibilidade de expressão, lamentavelmente desconhecida pelos puristas que tanto negam os cortes e recortes da vida e da criação.

LEMBRO-ME

LEMBRO-ME que em 25 de fevereiro de 1996, em Lisboa fui buscar o escritor José Saramago em uma casa localizada no bairro da estrela. Enquanto o conduzia em um simplório carro – por acaso neste mesmo automóvel tive também a honra de transportar o fotógrafo Sebastião Salgado e a sua esposa Lélia tentava dissimular a minha ansiedade com conversas sobre a nossa amiga em comum, a jornalista Cristina Duran, responsável pela conexão entre nós dois e que gentilmente nos cedeu a sua casa em Alfama para a sessão fotográfica. 

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A história dessas imagens surge a partir de uma insatisfação pessoal em relação ao padrão dos retratos clichês que na época predominavam nas mídias, levando-me a conceber o projeto Caras e Pessoas, cuja proposta era apresentar uma personalidade portuguesa sob duas óticas: uma face que espelhasse o normal e a outra - a exemplo da famosa fotografia de Albert Einstein com a língua de fora - o insólito, o inusitado. Bingo! A ideia estava concebida, faltava apenas a elaboração de uma lista com os nomes, a concepção para cada retrato e a produção, esta a parte menos atrativa uma vez que se tratavam de celebridades, da disponibilidade de suas agendas e das barreiras geralmente colocadas pelos seus assessores e empresários.

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drama humano narrado no livro Ensaio sobre a Cegueira, de autoria do Prêmio Nobel José Saramago, inspirou-me a produzir uma série de retratos com ênfase nos olhos do escritor português. A namorada da época declara que a ideia de utilizar a bola de metal partiu dela... Não querendo ignorar o mérito de ninguém, porém é fato que este exercício de brincar com a visão do Nobel para mim não se tratava de uma experiência inédita, pois na década de 80, durante uma sessão fotográfica com o então vizinho, o poeta Manoel de Barros, em alusão à sua figura reservada e avessa à fotografia, servi-me de um caracol para também vedar os seus olhos.

Quando o assunto é retrato, acredito que além da técnica e criatividade seja necessário uma cumplicidade entre o fotógrafo e o seu personagem. Em se tratando do Nobel Saramago, nada foi as Cegas, a sessão aconteceu sem perda da acuidade visual.