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LEMBRO-ME - ÍNDIA

Lembro-me, claro que sim! Difícil esquecer as provações que a cidade de Calcutá submete a qualquer visitante ocidental.

Como poderia me esquecer do vai e vem da densa massa humana que ocupa a 3ª cidade mais populosa da Índia? Das estrondosas buzinas capazes de moer o cérebro de um sujeito normal, imagina de um cuja intolerância ao barulho é quase zero?

Lembro-me que, como estratégia de sobrevivência, para suportar a poluição e ao intenso caos desta cidade busquei refúgios nas margens do rio Hooghly, nas periferias da cidade e nos parques urbanos. Confesso que a Calcutá que fotografei não representa ao estereótipo da Kolkata que nos é apresentado pelos livros, filmes e fotografias.

Foi nesta cidade que vivi as mais belas e desafiadoras experiências, onde a pobreza se mescla com o amor e vice versa. Não é por acaso que a missionária de origem albanesa, Madre Teresa, ali encontrou um campo fértil para semear o mais belo projeto de caridade e amor.

Acreditem, em Calcutá o impossível é possível! 

Um dos parques urbanos da cidade de Calcutá.

LEMBRO-ME

Uma entre tantas vantagens de estar “VIVO” é poder fotografar no dia dos “MORTOS”. Lembro-me desta data, um feriado de 2 de novembro de 2012 que me motivou visitar pela primeira vez o cemitério do Alecrim, em Natal, RN. 

Para muitos eles representam um local mal assobrado, para outros um santuário onde entes queridos descansam. Os cemitérios me fascinam como tema fotográfico, em Paris com frequência me refugiava no renomado Père Lachaise para meditar e através da terapia fotográfica amenizar a minha solidão. Sempre que posso me desvio e me perco em direção aos cemitérios...

Na manhã em que realizei essa fotografia acordei cedo, milagrosamente com facilidade encontrei estacionamento no disputado Bairro do Alecrim. Quando ali cheguei o cemitério já estava ornamentado com cores e pessoas. Por ser um local também frequentado por marginais eu estava alerta sobre possibilidades de assaltos. Em poucos minutos vivenciei uma cena triste ao escutar o lamento de uma senhora, idosa e indefesa, anunciando ter sido roubada. Logo fui tomado por uma mescla de compaixão, ódio e impotência.

Por horas explorei e fotografei o interior do cemitério, entretanto foi no seu exterior, próximo à porta de entrada, que me deparei com as barracas e os vendedores de flores. O colorido era espetacular, mas quando fotografo em preto e branco pratico o exercício da abstração das cores. Os vendedores, cientes da minha presença, amigavelmente me convidavam para fotografar as suas barracas com os respectivos arranjos. Acolhia com simpatia tal cordialidade e tentava lhes explicar que o meu foco era as coras penduradas. Pacientemente (alias, essa é uma virtude imprescindível aos fotógrafos) ali fiquei algum tempo a espera de um transeunte para então poder materializar este momento decisivo.

 

LEMBRO-ME

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LEMBRO-ME com clareza do momento quando fiz esta fotografia, é um fato recente. Era a minha primeira vista à Colômbia, estava em Medellín a convite da direção do 19ª Concurso de Latinoamericano de Fotografia Documental para receber um prêmio atribuído ao trabalho sobre a Cultura dos Mutilados.

Do aeroporto fui levado diretamente para o hotel Nutibara, uma referência dos anos 50 localizado na zona central da cidade próximo à praça Botero e ao Museu de Antioquia. Hoje a área está decadente com alto índice de prostituição, consumo de droga e violência, motivos pelo quais inúmeras vezes fui alertado sobre os perigos daquela área e seriamente advertido no sentido de evitar qualquer aventura pela rua que contornava a lateral esquerda do Nutibara.

O calendário marcava o 1º de maio de 2013, feriado em todo o país, as ruas quase desertas e a maioria dos estabelecimentos fechados. Sentia-me refém, aconselhado a não sair do hotel naquela noite. Parecia um pesadelo,  recém chegado eu estava curioso para descobrir o potencial da cidade que mesclava obras de Botero com histórias de paramilitares e narcotráficos.

Temendo riscos que eu próprio desconhecia usei o bom senso e logo aceite à condição de “prisioneiro. A janela da minha habitación proporcionava uma visão parcial da tal rua proibida, debruçado sobre o parapeito ali fiquei imaginando os segredos e mistérios daquela calleSentia-me como uma criança curiosa e impulsionada a desrespeitar regras...

Inquieto com tal condição recorri então à máquina fotográfica e comecei a fotografar o meu entorno sem sair do hotel. Das sacadas do Nutibara descobri alguns ângulos, entre eles esse sobre a tal rua proibida. A noite se alongava e por ali pacientemente fiquei por algum momento contemplando os universos de Fernando Botero.